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A ALMA ALVINEGRA TEM NOME: CARLITO ROCHA

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Carlos Martins da Rocha, o Carlito Rocha, nasceu no Rio de Janeiro em 1894 (não há registros da data completa) e faleceu em 12 de março de 1981, na mesma cidade, vítima de problemas cardiovasculares e renais.

DEDICAÇÃO COMO ATLETA E O DESPERTAR DE UMA GRANDE PAIXÃO

Considerado atleta exemplar pela dedicação incomum, praticou remo pelo Guanabara e futebol pelo Botafogo. Mas a paixão enorme e desmedida em tudo que fazia, transformou-se em amor, traduzida em entrega do corpo, muito dinheiro pessoal, saúde e alma para toda a sua existência a um único e insubstituível eleito: o Botafogo.

HISTÓRIA COMO JOGADOR

Jogou como zagueiro, fez parte da equipe campeã carioca de 1912, chegou a atuar 1 vez como goleiro (Campeonato Carioca em 13/05/1912, 1 X 3 contra o Americano), marcou 4 gols (3 em 1916 e 1 em 1919) e protagonizou uma história no jogo de 07/09/1918 (2 X 2 contra o América pelo Campeonato Carioca, nossos gols anotados por Luiz Menezes e Beheregaray) que deixou claro o quanto amava o clube: contrariando a todos e porque a equipe necessitava, entrou em campo com febre e com quadro de pneumonia diagnosticado. Ao fim do jogo, passou mal, entrou em coma e em decorrência disto afastou-se muito tempo dos gramados.

Os registros que obtive até o momento ainda me impedem de divulgar o total de jogos, gols e período correto no qual envergou nossa camisa.

CAMPEÃO TAMBÉM COMO TREINADOR 

Ao deixar os gramados, Carlito encontrou uma maneira de não se afastar do seu amado Glorioso, numa atividade que lhe dava muito prazer.

Participou das Comissões Técnicas (como eram estruturadas na época do amadorismo) nos anos de 1922, 1925, 1926 e 1927.

Mas seu maior feito como técnico foi ser campeão em 1935 com o esquadrão que nos deu o tetra (1932/ 1933/ 1934 e 1935) e 5 títulos em 6 anos: fomos campeões de 1930 também.

Historicamente foi o primeiro técnico campeão da época do profissionalismo (1935), permanecendo na função até 1939.

O ORGULHO E AMOR DO TÉCNICO E DIRIGENTE 

Em 1938, na inauguração do Estádio de General Severiano, ao ser perguntado sobre o que significava para o clube e para os seus torcedores o estádio, Carlito Rocha, então Diretor Técnico, mas já considerado o maior dos botafoguenses à época, disse:

– “Contemplo o maior sonho da minha vida. Quero o Botafogo lutando sempre, progredindo como merece, pois ele representa, no esporte do Brasil, uma de suas mais belas afirmações”.

General Severiano em 1939

DIRIGENTE: O BRILHANTISMO OFUSCARIA O JOGADOR E O TÉCNICO 

A partir do fim dos anos 30 passou a exercer cargos de direção, teve breve e competente passagem nos anos 40 pela Federação do Rio de Janeiro, mas o seu objetivo não era este….

Retornou (? Nunca deixou…) ao amado Botafogo com a renúncia de Adhemar Bebiano da direção do clube para cumprir um único mandato presidencial de 1948 até 1951, mas o exerceu com tamanha paixão e competência que mudou para sempre a história do clube e forjou na História do esporte brasileiro, a alma botafoguense, o “ser Botafogo” como todos nós conhecemos: supersticioso, dramático, vitorioso, passional, competente, intenso, visceral e apaixonante.

Continuou sua atividade como dirigente até quando sua saúde permitiu: o começo dos anos 60.

VISÃO DE FUTURO

Entregou-se com paixão a melhorar o futebol do Brasil como um todo.

Trabalhou incessantemente no fim dos anos 40 até trazer times ingleses para amistosos ao Brasil para que “pudéssemos avaliar como estávamos, comparados aos mestres”.

Os ingleses acabaram nos visitando entre 1948 e 1951 e fizeram alguns jogos contra os principais times brasileiros.

Com o Glorioso, realizaram 4 jogos graças a esta iniciativa:

20/05/1948 – Botafogo 3 X 1 Southampton (nossos gols anotados por Pirilo, Demósthenes e Heleno);

01/06/1949 – Botafogo 2 X 2 Arsenal (nossos gols de Braguinha e Geninho);

24/05/1951 – Botafogo 2 X 0 Arsenal (nosso gols de Zezinho e Barnes – contra)

10/06/1951 – Botafogo 1 X 1 Portsmouth (nosso gol de Braguinha).

 

A PROFISSIONALIZAÇÃO E A LUCIDEZ DE UM VISIONÁRIO

Foi um defensor incansável da profissionalização do futebol, comprando briga com Federações, o Conselho Nacional de Desportos e rádios, principalmente.

Dizia Carlito: “é preciso colocar as irradiações dentro do Plano Econômico dos Clubes”.

“Precisará existir um meio termo entre a publicidade e as instituições profissionais, antes que estas faleçam por falta de dinheiro e de cabeça”.

“Eu posso permanecer sozinho, mas não importa. O que importa é que a pedra foi lançada, ribanceira abaixo…”

“Um dia os clubes me darão razão”.

“É bem possível que esse dia chegue mais tarde para alguns”.
CAMPEÃO COMO PRESIDENTE: UM LÍDER NATO

Foi o grande líder, fora do campo, da conquista do Campeonato Carioca de 1948 em cima do “invencível” Expresso da Vitória vascaíno.

Campeões de 1948

Carlito ficou no imaginário popular e até na recordação e escritos de muitos botafoguenses como o personagem emblemático, carismático e muito supersticioso. Mas isto é apequenar sua competência: ele foi um líder inquestionável cuja atuação saía da esfera administrativa e cruzava de maneira competente as fronteiras para a área esportiva e na representação e defesa dos interesses do Botafogo acima de tudo, no dia a dia do Rio de Janeiro e Brasil.

Nenhum Presidente ou dirigente, conhecia como ele cada jogador do plantel e sabia como dar-lhes confiança e motivá-los.

A SUPERSTIÇÃO: MUITO ALÉM DA MERA CRENDICE

De fato, Carlito era um homem além de muito religioso, extremamente supersticioso.

Mas até que ponto esta superstição era apenas uma “besteira” ou uma “crendice sem sentido”?

Até que ponto esta superstição não era habilmente utilizada como ferramenta motivacional para ele mesmo, para todo o clube e principalmente para a Comissão Técnica e jogadores, quase como uma “mentalização positiva”?

As esquisitices e superstições colocavam o Botafogo na mídia e firmavam a sua marca como Clube grande, vencedor e diferencial. Isto foi de caso pensado ou mera consequência?

Estas perguntas, tenho a presunção de concluir que nunca foram feitas a Carlito Rocha. Adoraria escutar suas respostas, caso tivessem sido feitas, porque tenho a convicção que nem ele pensava nisto. Ele simplesmente só se concentrava em uma coisa: Botafogo, com o Botafogo, onde estivesse o Botafogo. Certo ou errado, mas sempre Botafogo em toda sua vida. No seu íntimo, ele e Botafogo não eram duas entidades, mas um ser único produto de uma simbiose indestrutível.

AS MELHORES SUPERSTIÇÕES

BIRIBA:

Nosso simpático cachorrinho SRD (“sem raça definida”), achado na rua em 1946 e levado ao clube pelo nosso jogador Macaé (Jamyr Sueiros). Naquela semana, Biriba “estreou” no banco de reservas de General Severiano, assistindo a uma vitória impressionante… algumas fontes informam que foi em 14/09/1946: Botafogo 10 X 0 Bonsucesso (gols de Braguinha 3, Heleno 2, Geninho 2, Izaltino 2 e Juvenal).

Bastou este fato para ser adotado definitivamente por Carlito Rocha, “tendo decisiva participação como amuleto” no título carioca de 1948.

Biriba tornou-se personagem obrigatório em todos os jogos (inclusive em excursões ao exterior), tão importante como qualquer jogador, a ponto de ter sua entrada proibida em São Januário… tal proibição nunca foi posta em prática porque Carlito entrava com Biriba no colo afirmando “ninguém impede o presidente do Botafogo de entrar onde quer que seja e quem estiver com ele entra, com certeza”.

Biriba morreu velhinho, sofrendo do coração e cego em 1958 no apartamento de Macaé, tendo a notícia do seu óbito noticiada pelo jornal “O Globo” na edição de 11/08/1958:

“Biriba morreu na residência do seu dono, na Rua Raul Pompéia (Copacabana), o zagueiro Macaé que foi seu lançador como mascote do “team” naquele campeonato de 1948.”

Em função disto, adotamos os cachorros como nossos mascotes e torcidas adversárias passaram a nos chamar de “cachorrada”, apelido que assumimos com o maior orgulho.
AS CORTINAS DA SEDE 

Carlito Rocha tinha o hábito de amarrar as cortinas da sede de General Severiano em dias de jogos do Botafogo. No entanto, certo dia Carlito estava assistindo ao jogo entre Botafogo e Madureira e o primeiro tempo terminara em 0 X 0. Carlito estava desesperado, especialmente porque a equipa jogava mal, e foi correndo à sede de General Severiano para verificar as cortinas. Chegando lá deparou-se com um faxineiro a desamarrar as cortinas. Carlito amarrou-as novamente, voltou para o estádio e o Botafogo venceu o Madureira por 6 X 0.
Noutra partida do campeonato de 1948, em que o Botafogo era surpreendentemente derrotado pelo Olaria por 3 X 1, Carlito deduziu que o fracasso só podia ser obra das cortinas. Como ele as mantinha permanentemente enroladas e presas por um nó, pediu a Aloísio, o seu assessor para assuntos de ‘mandinga’, que fosse à sede do clube para conferir o estado das cortinas. Aloísio pegou um táxi, dirigiu-se a General Severiano, retornou ao local da partida, e cinco minutos antes do término, com o placar já em 3 X 3, disse: “As cortinas estavam desamarradas. Foi aquele empregado novo, ele não sabia que…”. Mas Aloísio não terminou a explicação, porque Carlito afirmou: “Não importa. Agora sei que vamos ganhar”. E a um minuto do fim o Botafogo marcou o gol da vitória (4 X 3).

DOLABELA, O AZARADO (PARA NÓS E OS ADVERSÁRIOS TAMBÉM)

 Dolabela, antigo torcedor do Botafogo, sobre o qual se contam histórias inacreditáveis. Milton Coelho, por exemplo, conta que durante um jogo contra o Vasco da Gama, o goleiro Barbosa fraturou uma perna logo aos cinco minutos de jogo. A situação não teria nada de especial se Dolabela não tivesse, antes do jogo, batido no ombro do jogador dizendo: “Vê lá se hoje vai fechar o gol contra nós”.
Milton Coelho ainda relatou outra situação: “Noutra ocasião, um jogador, Rubens Bravo, bateu um pênalti para as nuvens e o Botafogo perdeu o jogo. Carlito Rocha, resolveu falar com o jogador, pois estava certo que aquilo era coisa feita: – ‘Seu Bravo, aquele pênalti, houve coisa misteriosa. O que foi que você fez antes do jogo?’ O argentino estranhou, mas foi logo contando tudo desde que acordara, o que comera, a roupa que vestira, até que disse: – ‘Todavia um cabellero gordito me llevo ao estádio.’ – ‘Gordito?’ – Interrompeu Carlito – ‘Não diga mais nada seu Bravo, não diga o nome dele, senão nunca mais acerta um chute.’ Era o Dolabela…”

ALOÍSIO: ROUPEIRO, VIDENTE E AS MANGAS LONGAS

Aloisio: assessor, roupeiro e mandingueiro oficial.

 

Aloísio, fiel escudeiro de Carlito no vestiário, além de roupeiro – era como uma aglutinação de todas as superstições do Botafogo. Além das superstições rotineiras, como repetir camisas, calças, ficar na mesma posição e com as mesmas pessoas da vitória anterior, Aloísio tinha vidências, as aplicava e era fielmente autorizado por Carlito Rocha.

Na final do Campeonato de 1962, Aloísio em pleno domingo de sol, disse que tinha tido uma visão e que o Botafogo teria que jogar de camisas de mangas compridas.

Assim foi e vencemos de 3 X 0 o Flamengo em dia milagroso de Garrincha (2 gols dele e fez a jogada que culminou com o terceiro gol, contra de Vanderlei). Tenho certeza que você alvinegro já tinha se perguntado do porque daquelas fotos do começo dos anos 60 com camisas de manga comprida em pleno Rio de Janeiro….

Garrincha dá o seu show na final de 62 num Maracanã lotado: Garrincha 3 X 0 Flamengo.

NOSSA ALMA 

Carlito, paradoxalmente peço que compreenda que não vou prestar nenhum agradecimento.  Faço isto com a convicção de que não temos que agradecer à nossa alma. Nos simplesmente a possuímos…

Nós fomos escolhidos e em cada lágrima vertida, em cada disparo do coração, em cada grito alucinado que maltrata a garganta e em cada gesto emocionado e apaixonado, todos nós carregamos uma partícula do Carlito Rocha, eternamente alvinegro.

Não esqueça Carlito: no próximo gol, milhares de vozes gritarão, milhares de abraços apertados serão dados e você estará lá em todos nós.

Apenas e Sempre Botafogo. Saudações alvinegras.

Pesquisa:

http://cacellain.com.br

http://terceirotempo.bol.uol.com.br/

http://mundobotafogo.blogspot.com.br

http://arquivodobiriba.blogspot.com.br

http://www.turmadoroma.com.br

Wikipédia e arquivos pessoais do autor

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