BOTANDO BANCA

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Se você tem menos de 40 anos, provavelmente nunca ouviu falar da Banca do Tolito.

O local era um tipo de posto avançado da torcida do Botafogo em pleno centro do Rio. Na banca de jornais da esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Sete de Setembro a bandeira do Glorioso nunca deixou de tremular enquanto Herlito Machado da Fonseca esteve no comando.

Tolito, como era conhecido por todos, foi trabalhar com bancas de jornais ainda na década de 1940 e a ligação com o futebol acabou sendo seu salvo conduto. Explico: é que a grande maioria das bancas do Rio pertencia a italianos e como o Brasil estava em guerra contra as forças do Eixo (Alemanha, Japão e Itália), muitas delas estavam sendo depredadas pela população. Para escapar , Tolito, que nada tinha a ver com a terra de Mussolini, resolveu colocar bandeiras do Botafogo, seu time de coração, Vasco e Flamengo no alto da banca. Como o Fluminense tinha as cores da bandeira da Itália, ficou de fora.

Reza a lenda que a primeira bandeira alvinegra que por lá chegou foi um presente de Carlito Rocha.

Mesmo depois da guerra, o botafoguense Tolito mantinha as bandeiras de outros clubes, principalmente durante o Campeonato Brasileiro. Dizia que a solidariedade carioca tinha que falar mais alto.

Mas nossa “figurinha carimbada” de hoje não era esse poço de serenidade futebolística. Não levava desaforo para casa, principalmente quando o assunto era o Botafogo.

Fundou uma torcida, a Fogolito. Ao seu lado estava um rapaz chamado João Faria da Silva, que mais pra frente seria conhecido como Rução, torcedor símbolo da Estrela Solitária. Em sua banca era possível comprar passagens para participar de caravanas de torcidas organizadas em jogos fora do Rio.

O prestígio era tanto que em 1972, quando o clube lançou a nova Revista do Botafogo, a festa foi na banca dele, com direito à presença de Jairzinho, o Furacão da Copa de 70.

O clima na frente da banca do Tolito, nos dias após os jogos, era o termômetro da torcida do Fogão. Se ganhássemos, havia festa. Se perdêssemos, era melhor que nenhum dirigente passasse por lá. Esta matéria de O Globo, de 79, falava sobre a comemoração da vitória sobre o Flamengo que impediu que o time da beira da Lagoa quebrasse o nosso recorde de jogos invictos (Viva Renato Sá!).

A outra paixão de Tolito era o samba. Foi compositor de mão cheia. Seu primeiro samba-enredo foi em 1962, na Unidos de Lucas, sobre o centenário de Ruy Barbosa. Mas foi na Mangueira, escola de seu coração, que brilhou. Emplacou vários sambas na verde e rosa. O mais famoso deles foi “No Reino da Mãe do Ouro” de 1976. O refrão caiu na boca do povo:

“Ô babá oba ô babá. É a mãe do ouro que vem nos salvar”.

Foi ele, também, quem revelou Martinho da Vila para o mundo do samba.

Manter a banca não era fácil, mas não faltava criatividade a Tolito. Quando anunciaram, em junho de 79, que o satélite Skylab cairia na terra, Tolito esticou um mapa mundi na banca, dividiu a superfície em pequenos quadrados, numerou e saiu coletando apostas pra ver quem adivinhava onde o tal satélite ia cair.

A Banca do Tolito virou patrimônio alvinegro. E, acreditem, por causa dela, o clube ganhou novos torcedores, como o jornalista Paulo Marcelo Sampaio (autor de “Os dez mais do Botafogo). A mãe dele trabalhava no prédio do Clube de Engenharia, bem ao lado da banca. Era lá que a cearense Elena ia, sempre, comprar cigarros. De tanto conversar com Tolito e ver sua paixão pelo Botafogo, virou botafoguense. O filho seguiu os passos da mãe e também passou a ser um seguidor fiel da Estrela Solitária.

Por essas e por outras, Tolito é a minha “figurinha” da semana.

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