CARIMBADAS

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Nascido em 1963, há tempos já sou escalado no time dos coroas.
Sou do tempo em que o futebol de botão era o nosso PS4. Tempo em que a Seleção atropelava adversários sul-americanos e não passava sufoco em eliminatórias da Copa, até por que boa parte de seus jogadores também levava uma estrela solitária no peito. Tempo em que nosso Botafogo era forte.

Por isso decidi optar por esse título para minha coluna semanal no retorno à fraternal Rádio Botafogo. E como boa parte dos leitores, com certeza, é bem mais jovem do que eu, cabe uma explicação. Os álbuns de figurinhas, muito antes da Panini chegar por aqui, eram bem mais simples, porém, além do atrativo de completá-los, alguns ofereciam prêmios para quem o fizesse. E, para dificultar as coisas, incluía em cada time uma figurinha carimbada. Geralmente a do maior craque da equipe. Era mais rara. Não era impressa na mesma quantidade que as demais. Ter uma figurinha carimbada para trocar era um trunfo e garantia ótimos negócios.

Nesta minha coluna no novo site da Rádio Botafogo vou falar um pouco sobre “figurinhas carimbadas” do nosso Glorioso (e não faltam nomes). Mas não apenas de jogadores e sim de pessoas que de alguma forma têm sua história marcada pelo time de General Severiano.

Para a estreia, não houve muitas dúvidas na escolha do personagem. Optei por Quarentinha, nosso eterno maior artilheiro.
Poderia ter começado com Nilton “Enciclopédia” Santos ou com Mané Garrincha, mas por uma questão de afeto, preferi o paraense Waldir Cardoso Lebrego, de quem tive o privilégio de conhecer a história ao escrever sua biografia no livro “O Artilheiro Que Não Sorria”, atualmente em segunda edição pela Mauad X.

Filho de Quarenta, mito do Paysandu nas primeiras décadas do século passado, Quarentinha seguiu os passos do pai no Papão da Curuzu. Foi parar no Vitória, da Bahia, onde garantiu um título depois de muitos anos de jejum e da Boa Terra veio parar no “solo sagrado” de General.

Apesar da fama de goleador e da identificação imediata com Garrincha, de quem se tornou praticamente um irmão, o garoto paraense não teve vida fácil. Era tímido e ainda sofria com o preconceito de dirigentes alvinegros. O Botafogo era um clube da elite da Zona Sul e os jogadores naquela época, em meados dos anos 50, nem entravam pela porta da frente. Acabou sendo emprestado para o Bonsucesso, onde mostrou serviço. Com João Saldanha assumindo o time em 1957, ano no qual seríamos campeões, o “cabeção”, como Mané o chamava, voltou ao alvinegro.

João estava certo. Quarentinha só não foi o artilheiro do campeonato daquele ano porque Paulinho Valentim marcou 5 gols na partida final na qual derrotamos os tricolores por 6×2. Nesta partida, numa jogada de mestre, Saldanha matou o Fluminense ao pedir que Quarentinha deixasse o ataque e colasse em Telê, cérebro do time das Laranjeiras.
Se não foi o artilheiro daquele ano, foi em 58, 59 e 60 e se tornaria, no correr dos 10 anos em que defendeu o Botafogo, seu maior artilheiro com 313 gols (e aqui abro, literalmente, parênteses para dizer que foram mais, porém, infelizmente, não tive êxito em conseguir súmulas de jogos disputados pelos Segundo Quadros durante uma temporada, o que, fatalmente aumentaria esta conta).

Quarentinha tinha duas caraterísticas que o marcaram para sempre: uma bomba nos pés e um jeito inusitado de comemorar seus gols, ou melhor, de não comemorá-los. Após marcar era abraçado pelos companheiros e sem se exaltar voltava ao meio de campo para o reinício da partida. Quando perguntado sobre a razão daquele comportamento, respondia que era pago para marcar gols e fazer a torcida feliz.

Integrou o time que encantou o mundo no final dos anos 50 e começo dos anos 60. Só não jogou na Copa de 62 porque ainda se recuperava de uma grave lesão no joelho. Amarildo acabou ficando com a vaga e, com a contusão de Pelé, brilhou no Chile. Em 19 jogos com a amarelinha, fez 17 gols.

Em meio a tantos craques de nossa história, Quarentinha, mesmo tendo marcado mais de 300 gols pelo Botafogo, acabou não sendo valorizado como devia. O clube o deixou ir de forma lacônica quando o fim da carreira se anunciava.
As pazes só foram feitas no dia da festa de inauguração da nova sede de General Severiano, trinta anos depois, em 1995. Convidado e depois de muito relutar, Quarentinha foi até lá e percebeu que o amor dos botafoguenses por ele continuava vivo.
A emoção foi forte demais pro cansado peito do goleador. Naquela mesma noite passou mal, foi internado e não mais deixou o hospital.
Morria o artilheiro que não sorria, mas seu legado continua vivo.
Quarentinha é, e sempre será, o maior artilheiro da história do Botafogo.

Semana que vem tem mais carimbadas. Até lá.

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  • Casé, excelente coluna de estreia nesta volta à Rádio Botafogo!
    Bem vindo novamente ao melhor local de reunião dos botafoguenses e a esse time de amigos que juntos constrói este espaço.
    Que essa sua coluna seja sinônimo de sucesso e um ponto de encontro da nação alvinegra.
    Abraços!
    Sigo com minha estrela na mão e nosso escudo no lugar do coração!!!

  • Leonardo Dupin disse:

    Meu pai sempre me falou da qualidade de quarentinha e da relação com o mané. Conta uma história sobre um desenho que Garrincha teria feito, um emaranhado de rabiscos, e quando perguntado sobre o que significava, exclamou que era o desenho de quarentinha.

    Será um prazer ler suas histórias e compartilhar essa alegria de ser Botafogo.
    Grande Abraço e Saudações Alvinegras.