CRUZA, MAZOLINHA!

Seja o primeiro a comentar

Ele tinha um grande coração.

Mas um coração com problemas.

A morte de Vágner Aparecido Nunes, o querido Mazolinha, na semana passada fez com que ele se tornasse minha “figurinha carimbada” desta semana.

Qualquer botafoguense, mesmo aquele que não era nascido em 1989, sabe (ou deveria saber) a importância de Mazolinha para o time da Estrela Solitária.

Foi dele o cruzamento para um dos mais importantes gols de nossa história.

arq_190823

No dia 21 de junho de 1989, aos 12 minutos do segundo tempo ele colocava, com perfeição, a bola ao alcance do ponta Maurício, que só teve o trabalho de empurrá-la para o fundo das redes rubro-negras. Era o começo do fim de um jejum de 21 anos sem títulos.

Sempre que relembrava o lance histórico, o atacante fazia questão de tripudiar sobre o chororô dos torcedores do time da beira da Lagoa:

“Eles (rubro-negros) ficam putos quando se fala sobre isso. Com certeza ele fez falta. Tenho certeza absoluta. O Leonardo ia desviar a bola de cabeça. Mas o Maurício deu um leve toque nas costas dele. E ele passou pela bola e já foi caindo. Aí o Maurício pegou de sem pulo para fazer o gol.”

1989

E não se esquecia do primeiro pensamento que veio à cabeça após o gol:

“Quando eu vi todo mundo correndo pra abraçar o Maurício, eu até pensei em ir também. Mas houve uma ‘lavagem cerebral ‘ tão grande do Espinosa quando me chamou para entrar, dizendo que tinha que marcar o Jorginho a todo momento, que eu fiquei com medo do juiz recomeçar o jogo e eu estar fora da minha posição. Aí voltei pro meio de campo. Acabei nem comemorando direito o gol, fiquei de longe olhando aquela loucura lá do outro lado”.

Quando tive o prazer de escrever o livro “21 depois de 21” com o querido amigo Paulo Marcelo Sampaio, conheci Mazolinha. Uma doce figura. Muito querida pelos companheiros de time por seu jeito simples e sincero.

O lateral esquerdo daquele time, Marquinho, conta uma história que mostra bem a forma como Mazolinha via a vida:

“Numa excursão ao exterior, eu passei pelo Mazolinha e ele estava parado em frente à janela de um dos corredores do hotel, olhando pro lado de fora, pensativo. Bem diferente do jeito descontraído dele. Eu parei do lado e perguntei se estava tudo bem. Aí ele se virou, olhou pra mim e disse com a cara mais séria do mundo: ’Você reparou numa coisa Marquinho?’. Eu falei: ‘No que?’ Tava crente que ele ia falar algo profundo… ‘Os pardal (sic), Marquinho. Tem pardal em todo lugar deste mundo.’ Caí na gargalhada. Esse era o Mazolinha”.

“Às vezes eu chegava em Marechal e via o Mazolinha caminhando em volta do campo, sozinho. Era uma coisa dele; ele gostava disso, de fazer essas coisas assim particulares, mas era um cara legal, um cara bom.”, relembra o zagueiro Mauro Galvão.

mazolinha1989_treino_botafogo_oglobo_manoelsoares

Nosso capitão de 89 lembrou, numa das entrevistas para o livro recordou um fato curioso sobre os treinos que antecederam a partida final:

“Mazolinha começou a ficar na ponta esquerda, depois do treino, cruzando bolas para dentro da área. Várias vezes eu vi. Ele ficava um tempão sozinho fazendo aquilo ali, sem que ninguém mandasse. E não é que na final a bola caiu daquele lado igualzinho pra ele. Luisinho meteu a bola e ele cruzou com perfeição. Ele, que é destro, cruzou como se fosse um canhoto.”

Quando perguntamos a Mazolinha a razão daquela atitude, ele tratou de esclarecer o “mistério”. Longe de serem uma “iluminação divina”, aqueles treinos eram apenas uma tentativa própria de melhorar o seu jogo:

“O Espinosa pedia muito pra eu cair pelo lado esquerdo. Só que eu não tinha perna esquerda, então o jeito era treinar. Porque se você chega ao fundo e para a jogada para tentar cruzar com a outra perna, vai atacante, defensor e até o presidente do clube, todo mundo, parar dentro do gol, né, irmão? Então, todo dia eu ia lá treinar um pouco”.

Agora, se os treinos não eram um sinal místico daquela conquista, o mesmo não se pode dizer de uma carta entregue a Mazolinha, no hotel Monza, no Recreio dos Bandeirantes, onde o grupo estava concentrado, naquele mesmo dia 21.

“Eu recebi uma carta na concentração, por volta de duas horas da tarde. Liguei pro Espinosa para pedir autorização e fui até a portaria. A carta, com uma letra bem redondinha, que parecia ser de mulher, foi escrita numa folha de caderno e não estava assinada. O texto dizia assim: ‘Parabéns. Hoje, 21 de junho, você é campeão carioca. Você lutou. Você merece’. Na época eu achei que era demagogia mostrar aquela carta pras pessoas, mas até hoje eu fico todo arrepiado só de lembrar”

Por sorte conseguimos trazer Mazolinha para a festa de lançamento do livro, no dia 21 de junho de 2010. Na sede de General Severiano ele pôde se unir aos companheiros de time, rir, ser feliz. Ser Mazolinha.

mazolinha

A vida, depois de largar a bola, ou depois da bola largar dele, foi difícil.

Aliás a vida de Mazolinha nunca foi fácil. Numa entrevista a Carlos Orletti, na revista Placar de 19 de outubro de 1987, admitiu ter sido viciado em álcool e estimulantes. As injeções começaram quando ainda tinha 16 anos. Um adolescente perdido no vale-tudo da Segunda Divisão do Campeonato Paulista, onde atuava pelo clube de sua cidade, o União Barbarense.

“O cara chegou e foi falando duro: ‘Tem que tomar’. Eu era inocente e despreparado. Não pensei muito. Estendi o braço e senti pela primeira vez o Glucoenergan entrando nas minhas veias. Foi dentro do ônibus que nos levava ao estádio. Imagine: eu que já corria que não era brincadeira, com aquele negócio nas veias… No primeiro escanteio chutei a bola de um lado a outro do campo”.

O período no Botafogo, a conquista do título de 89, foram raros momentos de felicidade.

Apesar de todos os problemas pessoais, sempre tentou se reeerguer. E quando o reencontro com a bola aconteceu, ao conseguir um emprego de professor de uma escolinha de futebol, teve um enfarte, foi obrigado a colocar três pontes de safena e acabou demitido.

Apesar de tudo, com quem conversava, Mazolinha só tinha um lamento:

“Queria ter dado mais alegria aos alvinegros.”

Vágner Aparecido Nunes se foi, mas Mazolinha ficou, pois faz parte de uma linda página da história do Botafogo de Futebol e Regatas.

Publicado no dia

Deixe um comentário! 1