ESTRELA OLÍMPICA

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Já pensou em chegar ao Japão sem falar uma única palavra de japonês ou inglês? E nem pense em usar o Google Tradutor, pois na época em que essa história se passou, nem se sonhava com Internet e Larry Page e Sergey Brin, criadores da ferramenta de busca mais acessada do mundo ainda não tinham nem nascido.

Quem teve que encarar essa roubada em 1964, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, foi Aída dos Santos, atleta do Botafogo selecionada para a prova do salto em altura. Pra se ter a ideia do feito, Aída era a única mulher da delegação.

O atletismo entrou em sua vida por acaso. Aída costumava jogar vólei no Caio Martins, em Niterói. Um dia, faltou quorum para formar dois times e uma colega, que fazia atletismo ali do lado, chamou-a para experimentar a modalidade. E logo na primeira tentativa saltou 1 metro e quarenta centímetros, para espanto do treinador, afinal o recorde brasileiro, na época era só 5 centímetros acima. Recorde que, por sinal, foi batido na primeira competição de Aída. Fez 1 metro e 50, mas ao chegar em casa com o troféu, levou uma surra do pai que era contra a carreira da filha, já que as competições não tinham qualquer tipo de premiação e ela tinha que ajudar nas contas da casa.
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O talento da jovem Aída, no entanto prevaleceu, mas só podia participar de competições se tivesse terminado as tarefas de casa, como por exemplo, lavar e passar roupas ou carregar latas d’água na cabeça. Foi este, por sinal seu “preparo” para a seletiva olímpica. Chegou para a competição exausta. Havia apenas uma vaga que estava entre ela e Maria da Conceição Cypriano, que representava o time da beira da Lagoa. Naquele dia 7 de setembro de 1964, Aída conseguiu a incrível marca de 1 metro e 65 centímetros e carimbou o passaporte para a Olimpíada de Tóquio.

Cinquenta e dois anos atrás a estrutura do esporte olímpico no país não era nem sombra do que é agora e nossa saltadora alvinegra pagou um preço alto por isso. Por ser a única mulher do grupo, ficou sozinha em um dos pavilhões dos atletas. Não tinha qualquer suporte da Confederação Brasileira de Desportos (ainda não existia o COB), presidida pelo nefando João Havelange. Para se ter uma ideia, na hora de preencher a ficha de entrada na Vila Olímpica, tinha que se comunicar por mímica e só descobriu onde colocar a data de nascimento depois que as japoneses cantaram Parabéns pra Você em inglês.
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Nos treinos, via as outras competidoras com treinadores, preparadores físicos e massagistas, enquanto ela ficava no “Bloco do eu sozinho”. E isso por pouco não lhe custou a participação nos Jogos. Não estava acostumada a cair sobre um monte de pedaços de espuma, como havia no estádio olímpico. No Brasil, caía numa caixa de areia. Num dos salto acabou torcendo o tornozelo na eliminatória e se não fosse o fisioterapeuta cubano ter cuidado dela, nem saltaria na final.

Os cubanos acabaram por adotar Aída. A CBD não tinha providenciado material esportivo para ela. Desfilou na abertura com a mesma roupa que tinha usado nos Jogos Ibero-americanos.
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Os cubanos a levaram até um representante da Adidas para conseguir sapatilhas e roupa de competição, mas como a Confederação não havia incluído o nome dela, nada feito. O mesmo aconteceria com a Puma, mas depois de presenciar uma crise de choro da atleta, o funcionário se sensibilizou e conseguiu arranjar algo. Aída teve que se contentar com sapatilhas de velocista, diferentes das usadas para salto.

Ninguém esperava que aquela mulher de 27 anos, contra tudo e contra todos, conseguisse se sobressair na prova. Nem a própria Aída estava confiante. A altura de corte para passar à final era de 1 metro e 70 centímetros, marca nunca ultrapassada por ela. Tirando forças sabe-se lá de onde, passou o sarrafo sem ao menos roçá-lo. E mais do que isso, na final, chegou a ultrapassar 1 metro e 74 centímetros, marca que lhe garantiu a quarta colocação. A vencedora foi a romena Iolanda Balaş, considerada um dos maiores nomes do salto em altura em todos tempos. Bicampeã olímpica, quebrou 14 vezes o recorde mundial feminino e venceu 150 provas consecutivas da modalidade.
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Não voltou com uma medalha, mas sim com um diploma e um orgulho enorme. Ao chegar ao Brasil, a imprensa a exaltava e autoridades prepararam um carro de bombeiros para que desfilasse, mas Aída abriu mão. Não queria tapinhas nas costas. O apoio que precisara no Japão, muito mais necessário, lhe faltara. Não seria ela que encheria a bola dos dirigentes que a deixaram na mão.

Aída sempre foi assim. Em 1972 foi cortada dos Jogos de Munique por não ter papas na língua.

O desempenho de nossa gloriosa atleta foi o melhor entre as mulheres até os Jogos de Atlanta em 1996. É ou não é para se ter orgulho dessa “figurinha carimbada”

Semana que vem tem mais, até lá.

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