GARRINCHA – O ANJO DRIBLADOR

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Manuel Francisco dos Santos no batismo, mas Mané Garrincha ou apenas Garrincha, para o mundo do futebol, nasceu no distrito de Pau Grande em Magé (RJ) em 28/10/1933 e nos deixou fisicamente em 20/01/1983 quando já tinha entrado eternamente para a História do futebol mundial.

O APELIDO

A origem do apelido, inspirada num pássaro, seria uma de suas irmãs, embora nenhum pesquisador ou biógrafo consiga determinar qual das suas irmãs, de fato, o chamou assim pela primeira vez (afinal eram dezesseis filhos naquela casa extremamente humilde).

“Troglodytes musculus” – nomes populares: corruíra ou garrincha

GARRINCHA OU GUALICHO?

Curiosamente quando Garrincha chegou ao Botafogo, levado pelo ex jogador alvinegro Arati, que o vira nos finais de semana jogando pelo Esporte Clube Pau Grande, quiseram mudar o seu apelido: o então jornalista alvinegro Sandro Moreyra, achou o apelido “fraco” e até “um pouco feminino” porque uma socialite carioca (cuja biografia é desconhecida)era conhecida como Garrincha.

Sandro então propôs a Fernando Bruce (editor do “Diário da Noite”) que apelidassem aquele ponteiro direito excepcional, já no seu primeiro teste ao enfrentar o grande Nilton Santos, de Gualicho: o cavalo argentino que se mantem até hoje como único bicampeão do Grande Prêmio Brasil e Grande Prêmio São Paulo. “Combinava mais com sua força e velocidade…”

Crédito: Diário da Noite

A coisa ficou meio dúbia até com os grandes radialistas da época. Nos primeiros meses de carreira, Oduvaldo Cozzi e Waldir Amaral transmitiam os jogos do “Gualicho” e Luiz Mendes os do “Garrincha”.

A unificação só veio após uma entrevista dada a Geraldo Romualdo da Silva de “O Globo”, quando nosso eterno Mané esclareceu a dúvida na coluna que saiu com o seguinte título: “Meu nome é Manuel e meu apelido é Garrincha”.

O QUE PODERIA SER MALDIÇÃO VIROU UMA MARCA IRRESISTÍVEL

Garrincha numa análise clínica fria e simplificada tinha uma distrofia física: as pernas tortas. Sua perna direita, seis centímetros mais curta que a esquerda, era flexionada para o lado esquerdo, e a perna esquerda apresentava o mesmo desenho. Ambas as pernas eram, tortas para o seu lado esquerdo. Algumas referências associam a um mal de nascença e outras mencionam poliomielite como a causa.

Mas o talento extraordinário transformou esta deficiência (numa época que a paraesporte nem existia) numa vantagem incomparável, pela imprevisibilidade de seus dribles e arranques, presenteando a nação alvinegra (e ao Brasil) com o maior atacante da História do futebol mundial.

Final de 1962: Botafogo (Garrincha) 3 X 0 Flamengo (Jordan e o grande Gérson que o digam). Crédito: Folha Patoense

O “JOÕES” ADVERSÁRIOS

Na sua humildade nosso Mané relatava, que toda Semana Santa era obrigado a assistir o filme da vida de “Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Apenas duas coisas chamavam sua atenção:“ a dança sensual de Salomé” e “o fato dela pedir a Herodes a cabeça de João Batista numa bandeja”.

Pois bem, num domingo após à missa, num jogo contra uma fábrica de suco de laranjas de Petrópolis, seu marcador enfurecido e exausto por levar tantos dribles, num último gesto desesperado, reuniu o resto de suas forças para dar um carrinho criminoso que foi driblado com mais um leve toque entre as pernas.

“Meu marcador deslizou na grama molhada para ser travado pelo mastro da bandeirinha que encaixou em seus órgãos genitais”.

O público perplexo, àquela altura, substituiu as risadas num gemido coletivo junto com o pobre marcador. Ao ser retirado de campo o jogador passa por Garrincha e diz: “desculpe, perdi a cabeça”.

A partir daquele dia, dizia Garrincha: “todos os meus marcadores que antes eram os soldados romanos da história de Jesus Cristo, transformaram-se em João, com suas cabeças numa bandeja, fossem eles violentos ou não”.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Após estrear contra o Chile, em 1955, no empate de 1 X 1 no Maracanã, Garrincha estreou na Copa de 1958 contra a União Soviética, assombrando o mundo, foi o bola de ouro da Copa no bicampeonato de 1962, literalmente “levando a seleção nas costas”.

Sua carreira de 60 jogos e 17 gols pelo Brasil, ostenta a impressionante marca de 52 vitórias, 7 empates e 1 derrota (justamente seu último jogo, na Copa de 1966: 1 X 3 Hungria). Em 1966 nem Garrincha consegue suplantar a soberba e incompetência da preparação para o Mundial na Inglaterra.

Se na época houvesse uma documentação mais adequada, além dos gols, quantas assistências seriam contabilizadas para o nosso gênio da ponta direita?

Primeiros minutos de jogo em 1958 e Garrincha manda um balaço que explode na trave esquerda de Yashin… o time soviético “jogou torto” para a esquerda, tentando inutilmente anular aquele incomparável atacante. Crédito: goal.com (FIFA)

BOTAFOGO

Entre 1953 e 1966 foram 614 jogos, 245 gols e centenas de assistências não contabilizadas ou documentadas.

Além do bicampeonato Mundial pelo Brasil, Garrincha pelo Glorioso também ganhou torneios Internacionais (muito comuns na época que reuniam grandes times): Torneio Pentagonal do México – 1958/1962, Torneio Internacional da Colômbia – 1960, Torneio Internacional da Costa Rica – 1961, Torneio Internacional de Paris – 1963, Torneio Jubileu de Ouro da Associação de Futebol de La Paz – 1964, Copa Íbero-Americana – 1964 e Panamaribo Cup – 1964.

Campeonatos Oficiais no Brasil: Torneio Rio-São Paulo – 1962/1964, Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo – 1961; Campeonato Carioca – 1957/1961/1962 e Torneio Início – 1961/ 1962/ 1963.

Créditos: imortaisdofutebol.com / WILNEY/AJB

UM ÍCONE DO FUTEBOL MUNDIAL

É espantoso o não reconhecimento de Garrincha pela atual geração de torcedores do futebol em geral, que cometem o sacrilégio de não mencionarem o nosso Mané como o maior atacante da História do futebol.

Prejudicado pela falta de registros na sua época, ainda assim, teve os seguintes prêmios oficiais internacionais:

Bola de Ouro da Copa do Mundo da FIFA: 1962

Equipe das Estrelas da Copa do Mundo FIFA: 1958/1962

Segundo maior jogador brasileiro do Século XX IFFHS: 1999

Quarto maior jogador Sul-americano do Século XX IFFHS: 1999

Oitavo maior jogador do Mundo do Século XX IFFHS: 1999

Décimo terceiro maior jogador do Século XX pela revista France Football: 1999

Vigésimo Maior jogador do século XX pela revista Inglesa World Soccer: 2000

Sétimo maior jogador do Século XX pelo Grande Júri FIFA: 2000

Seleção de Futebol do Século XX (FIFA)

A ORIGEM DO OLÉ E FAIR PLAY: DÍVIDAS DO FUTEBOL 

Dentre muitas dívidas que o futebol mundial tem com Garrincha, duas merecem destaque: a origem do “olé” e o “fair play”.

Foi na cidade Universitária do México em 20/02/1958, pelo Torneio Pentagonal daquele ano, quando Botafogo e River Plate empatariam após 90 minutos (nosso gol anotado pelo eterno Nilton Santos). Nosso genial e incomparável Mané fez uma partida fenomenal e o lateral esquerdo argentino Frederico Vairo, saiu do jogo tendo sido vítima de diversas e desconcertantes sequencias de dribles, que eram acompanhadas pela trilha sonora entoada por 80 mil vozes: “ooooléeee, ooooléeee…” Desde então, este grito foi adotado por outras torcidas.

Nesta época Frederico Vairo, já era na verdade “João”. Crédito: El Gráfico

Em 27/03/1960, jogavam pelo Torneio Rio-São Paulo, Botafogo X Fluminense, no Maracanã, jogo que terminaria empatado em 2 X 2 (nossos gols anotados por Paulinho Valentim e Quarentinha). Numa disputa de bola entre Quarentinha e Pinheiro, o zagueiro tricolor sentiu a perna e a bola se ofereceu a Garrincha que invadiria a área com grandes chances de fazer gol. Mas Garrincha preferiu jogar a bola para a lateral para que Pinheiro fosse atendido. Altair, o lateral tricolor repôs a bola em jogo e propositadamente perdeu o domínio da bola. Todo o lance causou estranheza e surpresa aos espectadores, ganhou uma crônica de Mário Filho (ele mesmo que batizou o Maracanã) no dia seguinte no Jornal dos Sports e é o primeiro registro documentado de fair play no futebol brasileiro.

VOCÊS CONHECEM A RUA BOTAFOGO NA HOLANDA?

Crédito: Fala Glorioso

Nesta história nosso gênio contou com “coadjuvantes” (um termo muito pobre, convenhamos…) que eram craques também: na cidade de Sittard é possível ver uma história deixada pelo Glorioso, depois de uma passagem do time de Garrincha, Didi, Nilton Santos e Zagallo pela cidade em 1959.

Uma rua chamada Botafogo, em homenagem ao time que encantou os holandeses. O Alvinegro, então, tornou-se um time querido na cidade.

A delegação brasileira ainda teve acesso a recortes de jornais da época, que mostravam os craques que formavam a base da seleção brasileira campeã mundial em 1958.

OUTROS CLUBES: OCASO, FIM DE CARREIRA, FIM DE VIDA…

Em fim de carreira, Garrincha ainda jogou 40 partidas, marcando 7 gols por: Corinthians, Atlético Jr, Flamengo, Novo Hamburgo e Olaria, deixando os gramados definitivamente em 1972.

O BUSTO E A ESTÁTUA (SINGELAS HOMENAGENS)

Apenas como reconhecimento, já que nada irá traduzir o que o genial Mané fez, depois do busto que ficou por anos no Maracanã,

Crédito: Renan Bacellar (globoesporte.com)

em janeiro de 2010, Garrincha foi homenageado com uma estátua de bronze com mais de quatro metros Setor Oeste do Estádio Nilton Santos.

Crédito: “Por Dentro da Mídia”

O LEGADO 

Querido Garrincha, nada do que eu escreva vai traduzir, nem de perto o que você representa para nós. Muito além dos títulos e feitos, você habitou um Universo diferente no mundo do futebol: aquele da alegria, da arte pura, da magia, da supremacia sem querer humilhar (mesmo que alguns assim se sentissem), do apanhar sem revidar e do fair play sem nem saber o que isto significava.

O Cidadão Manuel Francisco dos Santos que morreu pobre e doente, no fundo, hoje deve saber que teve a honra de ser o portador físico da alma inigualável de Garrincha aquele passarinho que sua irmã conheceu desde cedo, que arrastou multidões de todos os times para simplesmente divertirem-se e não reverenciá-lo (ele não queria reverências: ele queria sorrisos)… Garrincha eterno que deve estar divertindo até hoje os Deuses do futebol, com seus voos imprevisíveis.

Apenas e Sempre Botafogo. Saudações Alvinegras!

Pesquisa e Créditos:

Crédito foto principal: Fala Glorioso

Livro: Guimarães, Paulo Cezar – Sandro Moreyra

www.falaglorioso.com.br

Wikipédia e arquivos pessoais do autor.

 

 

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