GENINHO: RESPEITO É BOM E EU GOSTO…

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Minha figurinha carimbada desta semana chegou ao Botafogo antes da Estrela Solitária.

Mineiro de nome pomposo, Ephigênio de Freitas Bahiense ficaria conhecido no mundo da bola como Geninho. Um diminutivo carinhoso que não tinha nada a ver com o tamanho de seu futebol.

Sempre gostara de bola e por isso mesmo levou muitas palmadas, principalmente por trocar a missa de domingo pelo campinho de terra que ficava perto da igreja. Mas logo chamou a atenção e fez carreira com a bola, primeiro no pequeno Tiradentes e depois no Palestra Itália de Belo Horizonte que, anos depois, por conta da Segunda Guerra, ganharia o nome de Cruzeiro Esporte Clube.

Veio para o Rio de Janeiro quando ainda não tinha completado 22 anos. A vinda para a capital mexeu com a cabeça do garoto. Jogava futebol, ganhava dinheiro pra isso e não faltavam fãs empolgadas e outras tentações além dos gramados.

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Mas logo tomou tento, afinal, ao seu lado, em campo, estavam nomes de respeito, como Carvalho Leite, os irmãos Zezé e Aymoré Moreira, além de Patesco, de uma geração que ia chegando ao fim. Logo se tornou um dos líderes alvinegros.

Heleno de Freitas com toda sua paixão e destempero, só respeitava Geninho, que se tornara uma espécie de dono do time. Mas o próprio Geninho lembrou, certa feita, numa entrevista, que Heleno também teve que passar a se conter com o goleiro Osvaldo Baliza, um mulato alto e forte como o que. Principalmente depois de receber uma ameaça do arqueiro. É que Heleno, a cada gol sofrido pelo Botafogo, fazia gestos de reprovação ao goleiro. Ídolo que era, acabava influenciando a torcida que chiava também. Certo dia, como contou Geninho, Oswaldo encarou Heleno e disse, assim, na lata: “a próxima vez em que olhar para mim, ironizando qualquer merda que eu tenha feito, vou correr o campo inteiro para te encher de porrada e você nunca mais vai esquecer.” No jogo seguinte, contra o Fluminense, já o Botafogo ganhava por 2×0, quando Baliza sofreu um gol. De acordo com Geninho, Heleno chegou perto dele e perguntou se Oswaldo o estava observando. Ao saber que sim, Heleno ficou na dele, mas não deixou de comentar baixinho com o companheiro: Mas que foi um frangaço, foi…”

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Genninho era chamado pelos outros jogadores de Capita ou então, de Arquiteto por causa de sua facilidade para organizar as jogadas de ataque. Ditava a cadência do time.

Viu chegar Nilton Santos e também Garrincha, de quem tentou ser conselheiro. Em vão, diga-se de passagem. Mané era arisco demais para se enquadrar na autoridade de Geninho que, depois de se tornar também investigador de polícia, impunha ainda mais respeito. Chegava aos treinos na “estica”, sempre usando terno e gravata.

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Com a decisão do governo Vargas de entrar na guerra, alistou-se para servir na Força Expedicionária Brasileira em 22 de setembro de 1944. Ele e mais três jogadores botafoguenses: Walter, que atuava pelos profissionais, além de Dunga e Mato Grosso, dos quadros amadores.

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No front italiano não esquecia o Botafogo e a prova é uma carta que me foi mostrada por seu filho, o repórter cinematográfico Zeca Bahiense. A carta era endereçada ao presidente do clube na época, Adhemar Bebiano:

“Amigo Dr. Bebiano

Saúde e felicidades ao senhor, sócios e torcidas do Botafogo e todos meus companheiros. Aqui vou indo bem, graças a Deus.

Esta é a primeira carta que escrevo para o Brasil, e o faço com muitas saudades de nosso clube querido. Tenho tido notícias do esporte daí. Nas vezes em que encontro o Walter, o que é muito raro, fazemos “veneno” de toda a turma, e recordando, com saudades de tudo e todos, o ambiente bom de nosso clube. O senhor sabe que quem bebe dessa água nunca mais sente sede…

Meus cumprimentos pela colocação no campeonato. A Taça Eficiência em casa. Parabéns ao senhor e todos os companheiros de team. O Guil, pela terceira vez, campeão de basquete. Um abraço nele.

Doutor, aqui não nos tem faltado nada, desde o bom agasalho até cigarros. Espero que o senhor mande algumas revistas, fotografia, jornais, Seleções, etc.., para, nas horas de folga, matarmos as saudades dessa boa terra.

Quando voltar, estarei falando italiano…

O nosso Ivan no sratch da cidade, hein? A ele, meus parabéns pela sua vitoriosa força de vontade.

Andamos , aqui, em cima do gelo, como na temporada em Nova York, o senhor se lembra?

Espero que o Bengala ainda esteja conosco.

Antes de terminar, peço desculpas pelo atraso, pois só agora, Dr. Bebiano, estou acordando do pesadelo…

Joguei uma partida contra os italianos. Ganhamos de 3×0.

Fico por aqui, desejando ao senhor, sua família, meus companheiros de clube, sócios e torcidas do GLORIOSO, um feliz Natal e Ano Novo.

Do ‘Guerreiro’

Geninho”

O retorno ao Brasil só se deu em agosto de 1945, não sem tristezas e lembranças trágicas na bagagem, como a do dia em que por pouco não foi dizimado, junto com seus colegas de tropa por uma bomba. Poucos segundos antes deixara o local atingido. Quase 500 pracinhas morreram na Itália.

Sua volta ao time, em outubro, em um empate de 2×2 contra o Vasco da Gama.

Ainda tinha muita história pela frente, tanto que foi de fundamental importância no título carioca de 1948, quando voltamos a ser campeões depois de 13 anos e justamente sobre o poderoso “Expresso da Vitória” cruzmaltino. 3X1 em General Severiano

Veterano que já era, em 1955 começou sua carreira como treinador no próprio Botafogo, após 14 anos com a camisa alvinegra, 425 partidas (sétimo jogador com mais partidas pelo clube) e 115 gols.

Geninho foi o “xerife” do Botafogo, na mais positiva acepção da palavra durante toda a década de 1940 e merece nosso respeito e carinho.

Faleceu aos 62 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1980.

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  • Thamas Campelo baracho disse:

    Essa turma de hoje, da televisão, Espn, Sportv, Fox, e outras, tem que saber quem é o Botafogo e deixar de falar tanta bobagens. Nosso Glorioso, jamais sucumbirá. Nenhum clube no Brasil e no mundo tem tantos personagens, tão ricos em historias como o Botafogo. Esse sim, é um Grande Clube.

  • Rosemeire Guimarães Gaspareti disse:

    Amei a reportagem sobre o jogador Geninho. Quero saber o que houve com o filho dele,o cinegrafista José Ferreira Bahiense, conhecido como Zeca Bahiense. Grata

  • Rosemeire Guimarães Gaspareti disse:

    O que aconteceu com o filho do Geninho do Botafogo?