O VOO DA MEMÓRIA

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Aos 12 anos de idade, um menino que gosta de futebol já começa a saber das coisas ou, como diriam hoje em dia “manjar dos paranauê”.

Pois bem, quando eu tinha essa idade, minha infância orbitava em volta da bola, fosse nas peladas na rua, nas duplas de praia em Copacabana, nas épicas partidas de futebol de botão ou nas idas ao Maracanã para ver o meu Botafogo.

Meu pai, nessa época, morava em Petrópolis, por isso mesmo acabei tendo outras companhias para ir ao estádio. Um tio tricolor, que dava uma força (a quem acompanhei, em troca, em muitas partidas do Fluminense) e o Manoel, porteiro do meu prédio, que era botafoguense como eu. Foi com ele, aliás que vi, pela primeira vez, um dos meus maiores ídolos alvinegros e personagem de minha coluna de hoje.

Era um chuvoso domingo e mesmo assim muita gente enfrentou o toró (entre elas, eu) para assistir ao jogo entre Botafogo e Flamengo naquele dia 25 de maio de 1975. Um 2×2 de muitas emoções.

Emoções que foram muito além dos gols.

O Botafogo era comandado por Zagallo e entrou em campo com a seguinte escalação: Ubirajara, Chiquinho, Miranda, Artur e Marinho Chagas. Carlos Roberto, Ademir e Dirceu. Rogério, Nílson Dias e o argentino Fischer. Nilson e Marinho marcaram para nós. Mas não é de quem marcou gols que quero falar e sim de quem os evitou.

No segundo tempo Ubirajara saiu nos pés de Luisinho Lemos que, livre, iria marcar. No lance, nosso goleiro acabou se contundindo e teve que ser substituído pelo jovem Zé Carlos, de apenas 20 anos de idade e que vinha das categorias de base.

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O próprio time sentiu a troca e recuou, dando espaço ao adversário. Nessa hora, porém, Zé Carlos mostrou ao que veio e defendeu duas bolas praticamente à queima-roupa chutadas por Luisinho e Luís Paulo.

Só que, por volta dos 30 minutos da segunda etapa, o juiz Valquir Pimentel (me lembro como se fosse hoje) marcou uma falta na entrada da nossa área.

Gelei.

Não só eu, aliás; mas toda a torcida.

É que naquela época , falta, daquela distância, era praticamente um pênalti para Zico. Era a especialidade dele.

Estava sentado atrás do gol do outro lado.

Um silêncio tomou conta de nossa torcida.

O camisa 10 da Gávea meteu a bola no ângulo superior direito. Vi a trajetória como que em câmera lenta e só esperei o grito da torcida do lado de lá, mas para minha surpresa (minha e de todos os botafoguenses), Zé Carlos deu um voo em direção à bola e foi buscá-la onde a coruja dorme. E o mais incrível é que, ao invés de espalmá-la para fora (o mais seguro a fazer), agarrou-a sem dar rebote, como se fosse, aquele, uma tarefa corriqueira.

Explodi junto com nossa torcida. Começamos a gritar o nome daquele goleiro que, até então, era um desconhecido.

Foi o primeiro de muitos gritos.

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Zé Carlos logo se tornou o dono da camisa 1 e, na minha humilde opinião, foi o melhor goleiro que já vi atuar pelo Botafogo, sem subestimar o nosso Nego Jeff. Chegou a ficar mais de 700 minutos sem levar um gol e foi o goleiro durante nossa série de 52 jogos invictos entre 1977 e 1978.

Era sério. Tinha o apelido de Doberman. Só assim mesmo para impor moral junto ao “Time do Camburão” formado, entre outros, por Mário Sérgio, Paulo César Caju, Peri da Pituba e Dé (todos impossíveis).

Em 79, no entanto, Zé Carlos sofreu um sério acidente de carro que praticamente destroçou suas pernas. Teve que remendar tudo com pinos e placas.

Demorou muito a voltar a jogar e, quando voltou, já não era o mesmo.

A última notícia que tive dele foi que atuava como treinador de goleiros lá pelos Emirados Árabes.

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Por essa maravilhosa lembrança, Zé Carlos, o goleirão, é minha “figurinha carimbada” da semana.

 

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  • Thamas Campelo baracho disse:

    Concordo. Estava nesse jogo. Um dos melhores goleiros que o Botafogo já teve. Se não fosse o acidente, seria o goleiro da seleção na argentina. Só um detalhe, o Zico nesse ano já batia faltas e bem, mas só foi ser titular da seleção em 1982. Por isso eu falo, Zico nunca foi um fenômeno como muitos, da imprensa o proclamam. Vamos botar os pingos nos is.