PAIXÃO AO PÉ DA LETRA

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Tem quem não goste da expressão “botafoguense doente”, contrapondo que nada mais sadio do que torcer para o Glorioso.

Independente do termo usado, todos nós conhecemos algum botafoguense fanático. Apaixonados somos todos, mas há aqueles que transbordam amor de uma tal forma que a vida começa a orbitar em torno da Estrela Solitária. Todo o resto tem importância menor.

Minha “figurinha carimbada” de hoje era um cara assim.

Falo do jornalista Roberto Porto, nosso querido Robertão.

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Apesar da formação em Direito, foi um dos profissionais de imprensa mais atuantes entre as décadas de 60 e 90. Trabalhou como editor de esportes de “O Globo”, “Jornal do Brasil” e “Jornal dos Sports”. Colunista de primeira linha e profundo conhecedor do futebol, se aventurou, além dos jornais, pela Internet e pela TV. Durante muito tempo foi cronista no programa “Loucos por Futebol” da ESPN.

Porto escreveu vários livros, entre eles “História Ilustrada do Futebol Brasileiro”, ao lado de João Máximo e Salomão Scliar,  “Gírias e Verbetes Futebolísticos”, com Carlos Leonam e Manoela Pena e “Dicionário Popular de Futebol – o ABC das Arquibancadas”. Mas é claro que seu Botafogo não poderia deixar de fazer parte dessa bibliografia. Por isso, também escreveu “Botafogo: 101 anos de histórias, mitos e superstições”, “BOTAFOGO – O GLORIOSO” e “Didi: treino é treino, jogo é jogo”.

Por sorte tive a oportunidade de estar com o Robertão em algumas oportunidades. A primeira delas foi na arquibancada do Maracanã no começo de 99. O amigo Paulo Marcelo Sampaio fez as apresentações e juntos assistimos à estreia do Botafogo na Copa Rio-São Paulo, contra o Corinthians, campeão brasileiro do ano anterior. Uma goleada de lavar a alma: 6×1. O time paulista foi totalmente dominado e os gols foram saindo um atrás do outro. Bebeto abriu a contagem aos 10 minutos. Sérgio Manoel, aos 14, converteu um pênalti. O zagueiro Bandoch (alguém lembra dele?) fez aos aos 25 e Batata descontou três minutos depois. Mas ainda na primeira etapa marcamos mais dois: Zé Carlos aos 37 e Fábio Augusto aos 39. E o mais incrível é que com 5×1 no placar, em meio a tantos botafoguenses dando cambalhotas para trás de tanta alegria, Roberto Porto chorava copiosamente. Era assim, emotivo, apaixonado ao extremo. A alegria era tanta que o pranto não pôde ser contido. Para fechar a tarde, Bebeto ainda marcou mais uma vez, aos 28 do segundo tempo.

Um trecho de uma de suas crônicas pode traduzir em palavras tanto amor:

“O tempo passa, os campeonatos se sucedem e eu fico ainda mais apaixonado pelo Botafogo. Não sei, sinceramente, até onde esse meu amor irá. Antigamente não ficava tão nervoso e ansioso. Hoje, com mais de seis décadas de Botafogo nas costas, estou cada vez pior. Minha vida – alegria e tristeza – passa a depender dos resultados do Botafogo. Ainda mais agora com jogos no meio de semana. Confesso aos leitores desse blog – se é que ainda me seguem – que fico desorientado no dia em que o Botafogo vai enfrentar qualquer adversário. Só consigo pensar no jogo e como o Botafogo do meu coração vai se comportar em campo, no Engenhão ou fora dele.”

Em seus textos, a defesa da Estrela Solitária estava acima de tudo e de todos:

“Aproveito esse espaço para pedir aos torcedores do Glorioso – campeão de 1910 e 2010 – que não vaiem os jogadores que não estão bem. Não exijo que os aplaudam. Mas não vaiem. Jamais em minha vida vaiei um jogador alvinegro. Aquela camisa para mim é um símbolo. E vaiar um jogador que a está vestindo, acho eu, é um ato inominável.”

Porto era “a” fonte quando se tratava de história do Botafogo. Quando estava escrevendo a biografia de Quarentinha, é claro, fui conversar com ele, sempre atencioso. Porém, ao deixar o apartamento em que morava, em um condomínio no Recreio dos Bandeirantes, por pouco não bati as botas. Para chegar até onde estava meu carro tive que passar por baixo de uma rampa de acesso ao estacionamento. Abaixei a cabeça para entrar debaixo da rampa, mas, de olho no celular, esqueci de me abaixar para sair de debaixo dela. Resultado: dei com a testa no concreto e caí estatelado no chão. Só fui ter noção do que tinha acontecido quando recobrei a consciência, minutos depois. A lembrança daquele encontro, com Robertão e com a viga de concreto, ficou em minha cabeça por alguns dias, literalmente.

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Quando nos víamos, fosse em lançamento de livro ou em reunião da Confraria dos Amigos Botafoguenses, tinha sempre o prazer da boa companhia. Certa feita não pude ir a um desses encontros, era meu aniversário e tinha compromisso com a família, mas não é que de repente o telefone toca e quase caio da cadeira de surpresa… Era Roberto Porto, reclamando de minha ausência e aproveitando para desejar parabéns. Emocionado, como era do seu estilo, foi extremamente carinhoso e me deu um presentão daqueles ao dizer que era seu sucessor na guarda da memória botafoguense. Fiquei muito lisonjeado, embora soubesse que ainda teria que comer muito feijão com arroz para chegar aos pés da importância de meu amigo.

Problemas de saúde levaram Robertão aos 74 anos de idade. Uma de suas últimas grandes alegrias foi ter recebido o título de sócio benemérito do Botafogo, aliás, merecidíssimo.

Fecho essa crônica com uma frase dele próprio e que resume bem a alma botafoguense de minha “figurinha” de hoje:

“Não tenho medo da morte. Só vou ficar aborrecido porque ficarei sem notícias de meu querido Botafogo.”

roberto-porto charge: Paulo Romai

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