QUARENTINHA: RECEBO SALÁRIO PARA FAZER GOLS…

Seja o primeiro a comentar

O LOCAL DE NASCENÇA JÁ DENUNCIAVA O TALENTO

Waldir Cardoso Lebrêgo era o nome de batismo do nosso eterno Quarentinha, nascido em Belém (PA) em 15/09/1933, na Rua Curuzu, 1.118, ao lado do Estádio do Paysandu, tendo nos deixado em 11/02/1996 no Rio de Janeiro, vítima de insuficiência cardíaca.

A HERANÇA GENÉTICA

Luiz Gonzaga Lebrêgo, nascido em Barbados, no Caribe, veio para Belém ainda criança. Era chamado de “Quarenta” ainda na infância pelos colegas de escola, quando teve o número 40 cravado em sua matrícula escolar no Instituto Lauro Sodré.

Teve oito filhos. El Tigre, como Quarenta também era conhecido, marcou 208 gols com a camisa do Paysandu, tornando-se o terceiro maior artilheiro da história do clube.

INÍCIO DA CARREIRA E O APELIDO HERDADO

Foi pelas mãos do seu Luiz, o velho Quarenta, que aquele menino foi levado para treinar no juvenil do Paysandu em 1949.

Não custou muito para que os torcedores mais antigos logo fizessem uma relação de sua imagem com o pai. Assim nasceu o apelido do jovem Quarentinha, que rapidamente transformou-se em artilheiro e titular do time aos 16 anos.

Com o sucesso do menino, no começo de 1953, um enviado do Vitória de Salvador foi até Belém e o contratou.

No campeonato baiano daquele mesmo ano, Quarentinha assinalou 31 gols e foi o artilheiro da competição e campeão estadual pelo Vitória.

JOGADOR DO GLORIOSO

No ano seguinte, sua fama espalhou-se rapidamente e em 1954, representantes do Botafogo foram a Salvador com um vultoso cheque de 700.000 cruzeiros e, dias depois, tínhamos um novo camisa 9: um canhoto dono de uma incrível presença de área e com um chute muito potente.

Na época, já estava casado com Olga, que conhecera em Salvador.

Quando chegou ao Rio, foi morar na Rua Álvaro Ramos, bem ao lado do estádio de General Severiano.

O TEMPERAMENTO E A PUNIÇÃO DOS CARTOLAS

Assustado com o tamanho da cidade, Quarentinha foi aos poucos se adaptando.

Fazia muitos gols, ao mesmo tempo em que despertava uma grande curiosidade: como Quarentinha conseguia permanecer frio e indiferente depois de marcar?

Seu comportamento logo incomodou os cartolas. Depois de várias conversas sobre o assunto, Quarentinha se sentiu incomodado e adquiriu um comportamento rebelde. Ficava na noite e acreditava que aquilo não prejudicava seu rendimento dentro dos gramados.

Quando Gentil Cardoso deixou o Botafogo em 1956, os diretores decidiram aplicar uma punição: como represália, o emprestaram ao Bonsucesso.

Retribuindo essa retaliação, Quarentinha foi vice artilheiro do campeonato carioca de 1956 com 21 gols.

Uma linha de ataque sensacional: Garrincha, Paulo Valentim, Didi, Quarentinha e Zagallo e a defesa comandada simplesmente por Nilton Santos.

A VOLTA POR CIMA DE UM ARTILHEIRO INCONTESTÁVEL

Com o desempenho espetacular pelo Bonsucesso, a diretoria alvinegra resolveu chamá-lo de volta no ano seguinte.

Sob o comando de João Saldanha, em 1957, foi campeão carioca e artilheiro da competição nos três anos seguintes: 1958 – 20 gols, 1959 – 25 gols e 1960 – 25 gols, sendo neste ano comandado por Paulo Amaral.

Técnico João Saldanha com Quarentinha e Zagallo numa pausa em General Severiano.

Mesmo assim, Quarentinha permaneceu sem fazer festa para seus gols. Particularmente, dizia que não via motivos para tal: afinal recebia salário para isso.

Gol contra o Fluminense e Quarentinha não comemora….

Final do Campeonato Carioca de 1962: Botafogo 3 X 0 Flamengo, 2 gols de Garrincha e 1 de Quarentinha.

TÍTULOS PELO BOTAFOGO

Campeão Carioca em  1957, 1961 e 1962, Torneio Rio-São Paulo 1962 e 1964, Torneio de Paris 1963, Quadrangular Internacional do Rio de Janeiro 1954, Torneio João Teixeira de Carvalho 1958, Pentagonal Interclubes do México 1958, Torneio Internacional de Clubes da Colômbia 1960, Pentagonal Interclubes do México 1962, Torneio Jubileu de Ouro da Bolívia 1964, Quadrangular Interclubes de Buenos Aires 1964 e Torneio do Suriname 1964.

Que ataque é esse? Garrincha, Edson, Quarentinha, Amarildo e Zagallo.

O CHUTE PODEROSO E A RIVALIDADE COM O SANTOS

Nas próprias palavras de Armando Nogueira, assinando crônicas à época, “Quarentinha, eu o vi jogar muitas e muitas vezes. Era um chutador temível, um atacante de respeito, que fazia tremer os goleiros, fossem quem fossem. Tinha na canhota o que, então, se chamava um canhão. Chutava muito forte, principalmente, bola parada. Era de meter medo. Nos jogos Botafogo-Santos, era ele, de um lado, o Pepe, do outro. Ai de quem ficasse na barreira…”

 

Pelé e Quarentinha foram capa da Revista do Esporte juntos, o que demonstra a importância dos dois, nas equipes mais temidas no final dos anos 50 e começo dos anos 60.

Exagero ou não, segundo o escritor João Ubaldo Ribeiro, que passou a torcer pelo Vitória (Bahia) depois que viu Quarentinha ao vivo em 1953, “o chute do Branco e do Roberto Carlos perto do dele era uma folha seca caindo do céu…”

Já Luiz Mendes, em seu livro 7 Mil Horas de Futebol”, conta que, num jogo com o Fluminense, logo depois de Didi deixar o Tricolor das Laranjeiras para jogar no Botafogo, tudo estava pronto para o Didi bater uma falta frontal ao gol de Castilho, que sabia das manhas do Didi e conhecia bem sua folha seca. Tudo pronto, Didi sussurra para Quarentinha: eu faço que vou e você bate. Bate Quarentinha e o foguete foi parar no fundo da rede de Castilho…

Ônibus do Botafogo nos anos 60: Quarentinha, Servílio, Beto e Pampolini.

UM APELIDO POUCO CONHECIDO E A RESPOSTA DE GARRINCHA

Além do apelido que o consagrou, Quarentinha também era conhecido como “Cabeçudo”.

Um dos grandes amigos de Quarentinha no futebol foi Garrincha e em um teste psicotécnico antes da Copa de 1958, Garrincha desenhou um boneco de corpo fino e cabeça grande.

Questionado sobre o significado daquele desenho, disse que era o seu amigo Quarentinha.

Em foto de 1972 com Garrincha. Eles se consideravam irmãos.

SELEÇÃO BRASILEIRA E UMA HISTÓRIA MAL CONTADA: OS MENISCOS

Jogou pela seleção brasileira entre 1959 e 1961: em setembro de 1959, na goleada de 7 X 0 contra o Chile, ele marcou dois e marcou, de novo, contra o Chile, três dias depois, no Pacaembu, quando o Brasil venceu por 1 X 0. Ele deu a vitória ao Brasil.

Mas problemas nos joelhos (meniscos, como se dizia) o tiraram da Copa de 1962.

Numa história controversa e com defensores para ambos os lados, dizem que Pelé fez lobby contra Quarentinha para ser convocado o Coutinho para a Copa de 62… Aimoré Moreyra não o levou para o Chile. Foi convocado e depois desligado, devido a “ problemas nos meniscos”.

Coincidência ou não, Pelé e Coutinho, por contusão, ficaram de fora e um trio alvinegro composto por Zagallo, Garrincha (Bola de Ouro desta edição da Copa) e Amarildo (que entrou no lugar de Pelé) contribuiu com 8 dos 14 gols da campanha campeã.

Após a Copa de 62, jogou algumas partidas pela seleção, todas em abril e maio de 1963.

MÁQUINA DE FAZER GOLS

Mesmo assim, nos poucos jogos pela Seleção Brasileira obteve o que é considerado como a melhor média da história até hoje: 17 gols em 17 jogos.

No nosso Botafogo aonde permaneceu até 1964, é o maior artilheiro da nossa centenária história: 313 gols em 442 jogos.

Em 3 oportunidades, fez 4 gols na mesma partida: em 02/08/1958 nos 6 X 0 contra o Olaria, em 08/08/1959 nos 4 X 0 contra o Madureira, em 08/10/1960 nos 6 X 0 contra o Olaria.

Em outros 10 jogos anotou 3 gols.

 

FIM DE CARREIRA: FOMOS INGRATOS ?

Jogou 3 temporadas (1965, 1966 e 1967) no futebol colombiano e encerrou sua carreira no Almirante Barroso do interior de Santa Catarina em 1970.

De volta ao Rio e à família, Quarentinha, como muitos outros jogadores da sua época, enfrentou as dificuldades de ter sido craque numa fase em que os atletas tinham pouca informação, ganhavam muito menos que hoje em dia e não se preparavam para a vida depois do futebol. Ainda assim, segundo o depoimento de sua mulher, Olga, não vivia na miséria: “tínhamos dois imóveis e um dinheiro para viver dignamente”.

Mas alguns verdadeiros fãs do futebol e botafoguenses à época afirmavam que Quarentinha morreu pobre, esquecido e que nosso Clube foi ingrato com ele, em vida.

Quarentinha: aonde você estiver, o nosso muito obrigado, mesmo que seja tardio. A nação botafoguense tem orgulho da sua gloriosa história no Glorioso e saiba que até hoje você é merecidamente reverenciado e jamais será esquecido. O seu brilho contribuiu para eternizar a estrela solitária no futebol brasileiro.

Apenas e Sempre Botafogo ! Saudações alvinegras !

Pesquisa:

terceirotempo.bol.uol.com.br

www.falaglorioso.com.br

www.fogaonet.com

mauriciostycer.ig.com.br

futrio.net

www.jornaldebeltrao.com.br

tardesdepacaembu.wordpress.com

wikipédia e arquivos pessoais do autor.

Publicado no dia

Deixe um comentário! 0