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Do porrete ao estilingue, Barroca detalha primeiro turno do Botafogo entre erros e acertos

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Em balanço da parte inicial do Brasileirão, técnico usa novas metáforas para enumerar objetivos e brinca com nível técnico do jogo com o Cruzeiro: “Se a bola chorasse, o campo ficaria alagado”

A convite de Eduardo Barroca, os setoristas de Botafogo do GloboEsporte.com foram à sala do treinador no Estádio Nilton Santos. O cantinho acanhado onde “sai na porrada” com os jogadores, “voa no pescoço deles”, expõe suas opiniões, escuta os comandados e discute as “cagadas” feitas por ele e o time, que conquistou 27 dos 30 pontos projetados na primeira parte do Campeonato Brasileiro e faz campanha segura até aqui.

A entrevista tinha como objetivo destrinchar o primeiro turno do Botafogo. Foi mais do que isso. Homem de hábitos simples, como o próprio se autointitula, o treinador de 37 anos novamente utilizou analogias de fácil entendimento para explicar o que a equipe precisa para engrenar.

Se no início da competição comparou a bola a um porrete para explicar o gosto pela posse, agora lançou mão do estilingue e as bolinhas de gude ao falar do pouco poder de fogo que a equipe vem apresentando no Brasileiro.

– Costumo falar que se te derem um estilingue com dez bolas de gude para você subir a Rocinha e tomar a favela do Nem (que chefiou o tráfico local) você terá dificuldade. Isso envolve individualidade, ações coletivas, hábito.

Com direito a incenso aceso e um cavaquinho sobre a mesa ao lado, o suburbano de 37 anos, em sua segunda exclusiva ao GloboEsporte.com, novamente levou papo leve e longo com a reportagem. Repleto de palavrões e expressões muito comuns à personalidade dos cariocas.

Muito grato ao clube pela oportunidade de estrear profissionalmente como treinador e por poder dormir ao lado dos filhos (Ana Beatriz e Bernardo) quase que diariamente em sua cidade natal, vê o Botafogo como o “melhor lugar do mundo”. É esse discurso que tenta incutir na mente de seus atletas para enfrentar as dificuldades financeiras e crescer no Brasileiro.

– Isso aqui para mim é o melhor lugar do mundo. Hoje não troco o Botafogo por nenhum outro. Me deu oportunidade de me desenvolver. Eu preciso irradiar isso para os mais jovens.

Morador de Del Castilho, bairro próximo ao Nilton Santos, vendeu o carro e gasta R$ 13 para ir e voltar do trabalho, onde passa cerca de 12 horas por dia. Mas o estádio também lhe reserva regalias, que, aos risos, enumerou:

– Pertinho, é R$ 6,50 o meu Uber. É um mel (risos). Todo dia chego aqui cedo pra cacete, tem internet de graça, faço tudo aqui. A comida é boa. Botafogo até não está num momento bom financeiramente, mas banho quente, misto-quente e internet eles me dão (risos).

Confira o longo papo abaixo:

Qual foi o grande acerto do seu trabalho nesses primeiros 19 jogos do Brasileirão e qual o principal problema no período?

Tenho falado que é difícil responder algumas coisas, porque não tenho referências anteriores. É meu primeiro trabalho (no profissional), então fica bem difícil de ter referência de algumas coisas. O que eu vou falar é muito ligado a esse momento que estou vivendo e à minha experiência prática com eles. Quando eu vim eu tinha ciência de que precisava de resultado a curto prazo para permanência de trabalho. Acho que em alguns momentos isso foi muito importante para mim, dos momentos que a gente observou, a gente não tem interrupção de trabalho.

Quando eu vim, a percepção que eu tive é que os mais experientes tinham uma desconfiança por eu ter trabalhado com os mais jovens, porque talvez eu daria uma oportunidade a eles, e os mais jovens também tinham essa expectativa: “Opa, o papai chegou”.

No modo de gerir, eu tentei deixar muito claro para eles que eu escolheria aqueles jogadores que me aproximassem da vitória. Deixei claro que ninguém mais do que eu naquele momento precisava de resultado e que escolheria os jogadores que me aproximassem da vitória na minha avaliação. Num primeiro momento isso foi bom, porque quebrou aquele sentimento de quem não me conhecia.

Barroca aponta os melhores e piores momentos:

Sobre futebol, a gente jogou muito bem contra o São Paulo, mas aquela primeira sequência depois do jogo contra o São Paulo foi muito importante – Bahia, Fortaleza e Fluminense. Eu vivi outros Campeonatos Brasileiros como auxiliar técnico e muitas vezes eu precisei fazer um campeonato de resgate em outros clubes, por exemplo no Bahia, dos três anos que fui, a gente fugiu do rebaixamento tendo que fazer campeonato de resgate. No Vasco também foi assim. Então esse momento de fazer nove em 12 pontos no início foi nosso melhor momento, inclusive para a sequência do trabalho.

E o pior momento, sem dúvidas, foi o que chamei de “período crítico”, do Grêmio ao Flamengo, que foram quatro jogos sem vencer. A gente empatou com o Cruzeiro e perdeu três jogos com diferença de um gol e tomando gol no final – Grêmio, Santos e Flamengo. A leitura que eu tenho é que no Campeonato Brasileiro e em uma equipe grande, você não deve deixar acontecer duas derrotas seguidas, isso é muito ruim.

Meta de pontos para o turno quase alcançada e números de Libertadores caso mantenha a média nos 19 jogos restantes:

De uma forma geral, dentro da competição, tirando esse período crítico, a gente conseguiu trabalhar dessa forma. Nos últimos sete jogos, por exemplo, a gente ganhou três, empatou dois e perdeu dois. Estamos dentro de uma média adequada. A gente talvez pague o preço por não ter atingindo o objetivo que estabeleci de 30 pontos, que é uma condição excelente. A gente fez 27 pontos, se repetirmos isso no returno, teríamos 54 pontos e estaríamos com possibilidade de vaga na Libertadores com base nos últimos três campeonatos. Esse período crítico talvez tenha feito com que não batêssemos a pontuação que planejei.

Pensando em ótica do campeonato, temos jogos específicos. O jogo com o Goiás lá, que perdemos com gol no final, e o jogo com a Chapecoense em casa, em que a gente não exerceu o mando de campo. Se não me engano, das equipes que estão abaixo da gente, só perdemos para o Goiás. A gente fez um primeiro turno bom na minha visão.

A meta de 30 pontos foi estabelecida no início do trabalho, você ainda estava chegando e não tinha muita experiência… Estabeleceu 30, conseguiu 27 pontos, que está muito próximo. Passados 19 jogos, com todos os problemas que enfrentou até mesmo extracampo, esses 27 pontos foram mais do que imaginava? O time conseguiu mais do que podia? Surpreendeu?

Não me surpreendeu, porque eu levo a minha vida com confiança plena. Tenho muita confiança naquilo que me dedico e encontrei aqui jogadores receptivos a estímulos de trabalho. Os mais jovens eu conhecia muito e, todas as vezes em que foram desafiados em nível nacional, sempre corresponderam. Já era uma pequena referência que eu tinha. O que mudou foi a referência. Eles jogaram uma série de competições nacionais no sub-20. Eu tinha a referência deles, mudou a referência de adversário.

Os ciclos de Barroca em 2019:

  • 1º: Estreia até a Copa América (1ª à 9ª rodada)
  • 2º: Reinício até o fim do primeiro turno (10ª à 19ª rodada)
  • 3º: Primeira parte do returno (19ª à 28ª rodada)
  • 4º: Reta final do Brasileirão (29ª até a rodada final)

Eu sempre confiei muito nos jogadores que eu conhecia aqui há mais tempo. O grande lance no primeiro momento foi ter a receptividade de quem eu não conhecia. Não conhecia o Carli e o Pimpão, por exemplo. Uma coisa legal é que eu tinha alguns valores deles vendo de fora. Eu tinha uma visão de fora sobre o Carli e mudei assim que comecei a trabalhar com ele.

Projeções por ciclo:

  • 1º e 2º: Fazer 30 pontos (conquistou 27)
  • 3º: Atingir 40 pontos (precisa de 13 nos próximos nove jogos)
  • 4º: Lutar pela vaga na Libertadores

Ele é extremamente influente, importante, tanto que com ele dentro de campo os números da equipe sobem. O que eu pensava era a questão da lentidão e que teria dificuldade de sair jogando em algumas vezes. Trabalhando comigo, as duas coisas em nenhum momento foram problema.

Tive a oportunidade de falar com o Carli: “Quebrei a cara com você, porque eu tinha um pensamento e hoje é totalmente contrário”. Um cara inteligente, totalmente receptivo, sempre influenciando os demais. Isso tem sido muito importante, fez uma diferença muito importante.

Na sua estreia, contra o São Paulo, a gente já percebeu um Botafogo diferente. Quanto da sua filosofia você já conseguiu implementar e o que falta?

Consegui colocar algumas coisas, principalmente do controle por trás. Hoje temos uma lógica boa de saída de bola, que eu chamo de oito contra seisSão o goleiro, a linha de quatro e os três meio-campistas se sobressaindo em cima de uma pressão do adversário. Essa lógica acho que já estamos dominando muito bem, temos capacidade de continuar controlando o jogo mesmo sob pressão. Os nossos números de controle de jogo são extremamente expressivos, muito por trás.

Para mim, é claro que o que falta para darmos o salto de qualidade no nosso trabalho é transição da defesa para o ataque, conseguir esse controle maior dentro do campo de ataque e agressividade no terço final.

Envolve a capacidade de entrar na área com mais jogadores, movimentos de infiltração na última linha, ter a área preenchida com mais jogadores nos cruzamentos. Melhoramos a efetividade de bola parada, mas ainda acho que dá para melhorar mais. Temos estatura, qualidade de batida.

Fizemos um campeonato muito bom defensivamente, bola parada, organização, entrega dos jogadores. Mas, para dar esse salto de qualidade, que é sempre o mais difícil, no futebol destruir é muito mais fácil do que construir. E se você tem muito mais a bola do que o adversário, como acontece na maior parte do campeonato com a gente, vamos precisar ter um padrão de excelência em terço final. Isso envolve característica dos nossos jogadores, ações coletivas…

Costumo falar que se te derem um estilingue com dez bolas de gude para você subir a Rocinha e tomar a favela do Nem (que chefiou o tráfico local) você terá dificuldade. Isso envolve individualidade, ações coletivas, hábito.

Mas tenho insistido muito em treinar finalizações, treinar ataque às costas. Nesta terça mesmo, no final do treino, os jogadores ficaram mais de 20 minutos só treinando ataque às costas e preenchimento de área. Tenho feito isso com bastante repetição. Tem também feedback de jogo, mostro a eles o que aconteceu e o que não aconteceu. O jogo molda meu treino e vice-versa. Trabalho muito dessa forma para criar o hábito.

No início do trabalho, o Botafogo tinha bem mais posse de bola. Em muitos momentos até uma posse inofensiva (“estéril”, brincou Barroca). Depois, o Botafogo largou um pouco o “porrete”, termo usado por você. Por que isso aconteceu?

Acho que não mudou conceito, isso envolve características de adversários. Alguns adversários que enfrentamos nos últimos jogos nos pressionaram mais e, jogando pressionando, talvez você tenha um controle menor. Mas, pelos nossos números, a gente continua com uma soberania. Têm duas formas de marcar posse de bola, uma é a quantidade de passes, outra é o tempo que ela fica no seu pé. Se não me engano, contra o Atlético-MG, a gente teve mais tempo com a bola no pé, mas eles trocaram mais passes.

Mas acho que isso tem a ver com nossa tentativa de desenvolvimento do terço final. Quando você joga mais vertical, você controla menos. Em um determinado momento, por característica, a gente passou a pressionar de uma forma mais no gatilho do que como a gente pressionou no início.

O Diego (Souza), por exemplo, é um cara que não tem como característica correr que nem maluco, então isso faz com que a gente pressione mais em situações específicas que o jogo apresenta. Preciso dar um salto de qualidade para fazer isso melhor. Preciso também respeitar as características dos jogadores.

E temos as mudanças. Começamos o campeonato com Pimpão, Erik e Cícero na frente e vejam o ataque agora: Marcinho, Diego Souza e Luiz Fernando. Mudou bastante. Eu tenho um time-base que uso mais, mas Erik, Pimpão, Lucas Campos já foram usados, agora está sendo o Marcinho. Temos um time que jogou mais e na ponta direita mudou bastante.

Tem conversado com o elenco sobre cartões amarelos por reclamação/cera?

Temos 11 atletas pendurados. Vamos pagar um preço quando começarem os jogos de meio de semana. Mas passamos bem pelo período pós-Copa América até o fim do turno. Foram quatro suspensões em dez jogos. A tendência é sofrermos mais agora. Esse lance recente do Carli contra o Atlético-MG não foi cera. Carli não é santo, mas ele demorou porque faltaram opções de passe. Ele disse isso no intervalo, não ia fazer cera no primeiro tempo.

Acho que isso tem consequências no geral. Mas o jogo do Palmeiras foi completamente atípico por uma série de questões, pela forma como o árbitro conduziu o processo. Se tirarmos aqueles vários cartões… Eu prometi para mim mesmo que não ia levar qualquer cartão nesse campeonato. Vamos ver se conseguirei cumprir.

Outro dia até fiquei puto com o Diego (Souza). Pedi para ele tomar um cartão amarelo contra o Atlético-MG, para depois tomar contra o Ceará e cumprir suspensão diante do São Paulo, já que ele não pode jogar mesmo e zerar. Pedi e ele não tomou. Cobri ele no esporro depois, me disse que esqueceu. Ele só tomou um no campeonato.

Você separou o primeiro turno em duas partes: os nove jogos antes da Copa América e os dez seguintes. Vai repetir o planejamento no segundo turno? Qual o objetivo para os próximos nove jogos?

Vamos trabalhar os próximos nove jogos de duas maneiras. Pela questão dos enfrentamentos, que vale para o turno todo: pelo menos zerar os confrontos, se possível positivar ou dobrar. O que isso significa? No duelo contra o São Paulo, estamos com -3 pontos pela derrota na estreia. Então temos que vencer no sábado para ao menos zerar (igualar). Em um confronto que empatamos no primeiro turno, podemos positivar vencendo agora. E naqueles que vencemos, podemos dobrar fazendo seis pontos sobre o mesmo rival.

A outra questão seria passar dos 40 pontos nesse próximo ciclo. Precisaria de 13 pontos nos nove jogos até a partida contra o Grêmio. Aí eu teria os dez jogos finais para buscar o que me interessa no campeonato. Meu combinado com eles é o seguinte. Hoje o campeonato nos oferece três coisas: rebaixamento, Sul-Americana e Libertadores. Quanto antes a gente eliminar uma, mais jogos teremos para brigar pelas outras.

Qual foi o tropeço que mais te incomodou no primeiro turno?

Não sou de lamentar assim, mas a derrota para o Goiás foi ruim porque tomamos o gol no final. Não desrespeitando o Goiás, nada disso, é importante ressaltar. A gente vinha de três vitórias, mas não fizemos um bom jogo. Tomar aquele gol no final foi dolorido. Contra o Ceará também não fizemos um bom jogo, mas empatamos. O sentimento é outro. Acho que em nenhum jogo do campeonato até agora tive a percepção de que o adversário nos atropelou. Que foi um dia para esquecer. A gente competiu dentro de nossas características e dificuldades.

E qual foi a vitória de certa forma injusta? Aquela que te irritaria se você fosse o treinador do outro time?

Fluminense, sem dúvidas. Foi um jogo de imposição clara. Eu fui de forma kamikaze no pescoço deles, e o Fluminense, com mérito, soube jogar. Foi o primeiro jogo em que tivemos menos posse de bola. Eles criaram diversas chances e perderam.

Você assumiu dizendo que precisava de resultados a curto prazo e que poderia trabalhar melhor a equipe durante a Copa América. Mas o momento crítico do primeiro turno veio justamente logo após o reinício da competição. Por que o time não rendeu tanto após a pausa?

Vocês mesmo fizeram uma matéria interessante sobre isso, dividindo meus primeiros 20 jogos em duas partes. Foi uma crítica que fez muito sentido para mim. Depois dela eu juntei a comissão técnica toda, o Anderson Barros e passamos praticamente duas manhãs saindo na porrada para buscar a opinião de cada um sobre o que tinha acontecido.

Aquilo era fato: 70% de aproveitamento nos primeiros 10 jogos, 26,6% nos dez seguintes. Tenho por hábito ao final de cada ciclo fazer um dossiê de tudo o que foi feito. Acabamos de fechar o segundo ciclo do trabalho. Entramos de cabeça no assunto, o que treinamos, quais problemas tivemos, adversários melhores… Mesmo assim esmiuçamos tudo e se for ver a gente perdeu no detalhe.

Detalhe que no início estava vindo para o nosso lado, gols contra Fortaleza, Fluminense. Contra o Grêmio tomamos um gol de falta no nosso canto. Era um jogo para empate e perdemos. Contra o Santos ficamos com um jogador a mais e não conseguimos aproveitar.

Contra o Cruzeiro, foi justo o empate. Jogo horrível, se a bola chorasse o campo estaria alagado (risos).

E diante do Flamengo acho que jogamos bem, lutamos até o final, mas teve uma influência da arbitragem no resultado. Resumindo: saímos na porrada por causa desses 20 jogos e não chegamos a um único fato. Foi um conjunto de pequenas coisas que influenciou.

Teve ainda a eliminação da Sul-Americana no meio disso tudo. Perdemos um jogo em casa que foi equilibrado. Carli expulso, falha individual do Marcelo. Antes desse jogo, o Carli perdeu a avó que o criou. Até o liberei do jogo, mas ele quis atuar. Ele deixou a concentração no dia do jogo para ir em casa comunicar o filho. Enfim, foi uma série de fatores.

Por que o Botafogo geralmente é um time lento?

Eu tenho uma responsabilidade grande nisso pelas minhas escolhas. Eu tenho escolhido linha de quatro e triângulo no meio com característica de conservação. Mas eu entendo que isso não é o principal para a falta de velocidade e sim a característica dos homens de frente.

O Diego (Souza) não é um homem de atacar espaço. Luiz Fernando também não é, apesar de ter velocidade. Tínhamos o Erik para atacar espaço, o Biro Biro também faria isso. Não encontramos ainda… Nem posso criticar tanto meu meio-campo, hoje eles não têm muita possibilidade para utilizar a bola em espaço. Por mais que todos tenham bom passe.

Por isso optamos por outra característica. Não posso crucifixar o meio porque é uma escolha minha. Por isso tenho optado pela sequência de um mesmo time. Temos um time-base, muda uma coisa ou outra por suspensão e lesão, mas temos uma base. Aposto nisso para criar uma homeostase de entrosamento, relação entre eles e vamos deixando a velocidade para ocasiões especiais do jogo.

Marcinho vem jogando na ponta. É uma aposta por necessidade ou pode ser trabalhado em definitivo para a sequência da carreira dele?

Quando Marcinho jogou comigo na base, ele já estava no profissional. Ricardo Gomes o liberou para os jogos finais do Brasileiro Sub-20 2016 e também do Carioca, mas já era lateral. A minha decisão de mudar a posição não teve nada a ver com poder de marcação. Até porque ele tinha recuperado totalmente a alta performance antes da mudança. Tem mais a ver com a minha escolha. Tenho muita confiança no Fernando. Quando ele está em campo os números são representativos. Pode pesquisar. Com ele em campo, o aproveitamento é muito alto.

A ideia do Marcinho foi pela capacidade que ele tem de entender o jogo. Tem potencial físico acima da média. João Paulo é normalmente o jogador com mais volume, mas o Marcinho tem chegado perto e com intensidade muito maior. Sobre o futuro não consigo cravar. Hoje ele me atende mais adiantado, como também na lateral.

Tenho hoje que pensar mais na equipe do que no desenvolvimento individual dele. Marcinho está feliz, conversamos sobre isso. É muito receptivo. Sabe que essa questão pode agregar muito em sua vida e até na questão mercadológica. Quem faz duas funções com excelência tem essa condição.

Quais os planos para o Leo Valencia?

Ele e o Marcos Vinícius têm mais características de camisa 10. O Marcos Vinícius tem mais potencial de finalização. Com certeza são jogadores que fazem parte dos planos. Me pauto na competição entre eles e no que o jogo me dá. A partida é um termômetro importante para meu treino, assim como o treino é para o jogo.

Leo tem tido suas chances depois de um tempo, mas sempre contei com ele. Naturalmente terá espaço. Se ele performar nos jogos, complementar a característica individual dele com o que precisamos para o jogo, com certeza tem totais condições para brigar por seu espaço. Tem experiência e qualidade técnica para isso.

Você ainda conta com a chegada de alguém, visto que as inscrições se encerram no dia 27?

O Anderson está tratando disso, mas hoje eu não penso nessa possibilidade. O Anderson e a direção tratam dessas possibilidades, falamos do que a gente precisa, mas hoje não trabalho com expectativas equivocadas. Meu foco é com o que tenho e no desenvolvimento do que tenho aqui dentro.

Ficou frustrado pelo fato de as contratações do centroavante Nicolás Blandi e do zagueiro Dário Aimar não terem dado certo no último dia da janela?

Eu acho que um dos principais fatores de uma equipe de alto nível é competição interna. Vocês vão lembrar que quando cheguei aqui, eu falei da importância de ter um centroavante de peso. Acredito muito que a competição interna desenvolve o jogador pra caramba. Quando você dá competição de igualdade para todos, quando você pauta o seu jogo como ferramenta de avaliação. Isso é batom na cueca.

Acho que o Botafogo está fazendo a coisa certa. Não pode pensar no agora e escangalhar o clube para frente. Hoje o Botafogo tem as suas necessidades, a gente precisa crescer enquanto instituição.

Não pode fazer um Brasileiro bom e no ano que vem lutar contra coisa ruim de novo. A gente precisa pensar em médio prazo e em desenvolver os ativos do clube.

Ao falar em desenvolver os ativos, cita os pratas da casa que vêm sendo usados:

No último jogo, começamos com quatro jogadores da base: Fernando, Marcelo, Marcinho e Lucas Barros. Se pegar a média, a gente começa todo jogo com pelo menos três da base. Ou seja, está dando minutagem aos teus ativos. Está dando sentido a oito, 10 anos de investimento que se faz nos caras e sendo competitivo.

É lógico que o torcedor do Botafogo gostaria de ter jogadores de renome internacional. Lógico, ninguém é bobo, mas custa caro e hoje nossa realidade não é para isso.

Para o Anderson, seria muito fácil ir lá, assumir um compromisso com um grande jogador, chegar aqui e não honrar o compromisso com esse cara. Daqui a pouco, esse cara não está respeitando a instituição, vai embora, e o clube tem que pagar. Isso não faz sentido mais.

A gente paga um preço talvez por falta de competição interna, mas se a gente fizer tudo certinho e se organizar nesse sentido, vai colher os frutos na frente.

O que não abro mão com eles, sejam os mais jovens ou mais velhos, é o respeito à instituição mesmo diante da dificuldade. Precisam estar aqui e ter prazer de estar no Botafogo.

Talvez eu seja um espelho nesse sentido porque eu estou tendo minha primeira oportunidade. Isso aqui para mim é o melhor lugar do mundo. Eu não troco esse lugar aqui por nenhum outro. Hoje não troco o Botafogo por nenhum outro. Lugar que me deu oportunidade de me desenvolver. Então eu preciso irradiar isso para os mais jovens.

Transporte a R$ 6,50, misto-quente e internet de graça: um mel

Falo isso sempre para eles, é o meu sentimento. Chego aqui cedo pra caceta. Não tenho carro, eu vendi meu carro. Venho de Uber e volto de Uber porque não tenho hora para ir embora.

Pertinho, é R$ 6,50 o meu Uber. É um mel (risos). Todo dia chego aqui cedo pra cacete, tem internet de graça, faço tudo aqui. A comida é boa. Botafogo até não tá num momento bom financeiramente, mas banho quente, misto-quente e internet eles me dão (risos).

Antes você vinha caminhando… (brinca o assessor do Botafogo, Kako Arêas)

Se caminhar fosse bom, carteiro nenhum morria (risos).

Parou de vir caminhando para não tomar um bote ou só por cansaço?

Não, não tomo não. Se der um bote aqui, o cara vai se complicar (risos).

O quanto a sua carreira mudou nesses cinco meses?

Sou um cara de hábitos muito simples, continuo fazendo tudo que sempre fiz. Quando estou tranquilo, não deixo de tomar um chope com a minha mulher onde eu gosto, não deixo de levar e buscar minha filha na escola.

Essa chance é zero porque acho que a minha vida é muito maior do que o futebol. Continuo com o meu hábito de ir na Praça Manet (em Del Castilho) para ver uma pelada e cornetar os outros.

Só que a dedicação e a responsabilidade são muito grandes. Estou chegando muito cedo e voltando muito tarde, mas está muito melhor do que trabalhar em São Paulo. Via meus filhos uma vez por semana e isso quando via.

Chego aqui 7h, 7h30, e volto para casa 20h30, 21h. Às vezes chego em casa, e os meus filhos já estão dormindo, mas eu tenho a possibilidade de dormir do lado deles. Isso, para mim, tem um valor muito grande. Quanto custa isso aí em dinheiro?

Vínculo com o Botafogo:

Por isso valorizo muito o Botafogo, que me dá a oportunidade de estar no profissional, na Série A, e de estar vivendo com meus filhos e minha família. O Botafogo está me realizando um sonho.

Engraçado que o torcedor do Botafogo tem esse carinho comigo. Na rua, ele é muito carinhoso comigo. Faz suas críticas, dá seus pitacos e opiniões, que é normal o torcedor dar. Mas o torcedor do Botafogo tem respeito grande porque sabe do meu respeito pelo clube.

Passei rápido aqui em 2014, como auxiliar, mas minha relação com o Botafogo em 2016 ficou muito forte com o que a gente começou a fazer. Deu resultados desportivos e ativos para o clube. Ficou um sentimento a partir dali.

Erros sim, sacanagem não:

Acho que a forma como levo minha vida profissional, o torcedor se identifica com a dedicação. Vou fazer cagada, mexer, escolher mal, escalar mal, substituir mal, isso aí faz parte, inclusive do meu amadurecimento profissional.

Mas o torcedor sabe que tem um cara que vai dar a vida, que não vai deixar nenhum jogador sacanear o clube em nenhum minuto sequer. Pode ser quem for, que eu vou no pescoço.

Passo isso aos jogadores. Isso aqui é minha vida. Quanto vale a escola e o futuro do teu filho? Quando o jogador chega aqui sem a responsabilidade adequada, ele está mexendo com a minha filha e com meu filho. Isso para mim tem um valor muito grande.

Acho que os jogadores aqui são fodidos nesse sentido. Mesmo quando fazem cagada, eles têm muito isso na cabeça deles. Quando chamo aqui na sala e digo “fez cagada”, os caras dizem: tem razão.

Alguma “cagada sua” no primeiro turno te chamou atenção especialmente?

Algumas. Trabalho muito com o jogo das substituições. Fui muito educado como treinador de base a fazer isso. Me apego muito se o treinador rival já fez a primeira. Gosto sempre de ter a última substituição para ter a última carta na manga.

Tenho por hábito não fazer substituição de supetão, no impulso ou na raiva. Às vezes o cara está fazendo merda, eu estou com raiva dele, mas dificilmente faço isso.

Com meus auxiliares no dia do jogo, cedo, a gente senta e monta um campo-grama com todas as possibilidades de substituição, ganhando, perdendo, com um a mais ou com um a menos. A gente faz muito esse mapeamento.

Temos sempre um auxiliar em cima e outro comigo no banco. Sempre trabalho com eles, principalmente para segundo tempo, as substituições. Pergunto: “qual seria a tua primeira mexida e por quê?”

A cada cinco minutos, a gente vai conversando: “E aí, mantém aquela ideia?”. Procuro fazer as mexidas com essa lógica, porque estou mais envolvido na emoção do que eles.

Mas já aconteceu de eu ir na minha intuição e me f…

Você também não é de barrar jogadores que estão numa sequência ruim. Mas o Lucas Campos, por exemplo, não teve uma sequência. Acha que ele sentiu a titularidade depois de fazer um grande jogo contra o Athletico-PR?

Ele fez um grande jogo ou entrou bem e sofreu um pênalti? Quando aconteceu tudo aquilo com ele, eu fui o primeiro a dizer que conheço o jogador e que acredito nele. Ele estava treinando separadamente, e eu o trouxe para dentro.

Mas tem que ter muito cuidado para não criar expectativa equivocada. Foi a primeira coisa que falei. Ele vai voltar a ter espaço, porque é um jogador com muito talento, que tem característica que eu não tenho no meu grupo. De drible, de enfrentamento curto.

Vai voltar a ser utilizado, mas entendi que naquele momento a gente precisava de um cara de mais força para atacar as costas, até por aquilo que a gente falou de tentar ser mais vertical. Entendi que o Marcinho já é um cara mais experimentado, com mais de 80 jogos como profissional (soma 91). Cara experimentado e com nível físico maior, mas o Lucas vai voltar.

Por outro lado, o Rodrigo Pimpão não vinha rendendo, e ele seguiu no time. Por que não dar uma chance ao Lucas, que era uma incógnita, em vez de insistir com Pimpão?

Basicamente essa escolha está pautada em referência. Eu sei exatamente o que posso esperar do Pimpão. Do Lucas eu não tenho referência pregressa. Ele pode driblar todo mundo e fazer um gol de placa. Ou fazer uma partida muito ruim. Eu só vou ter essa referência e essa segurança no momento em que ele for experimentado entrando com a gente ganhando, perdendo, jogando bem ou mal.

Isso vai me dar segurança para saber como posso contar com ele. Só o usei em dois jogos (como titular). Preciso de mais referências. Quantos jogos o Pimpão já fez comigo e quantos não fez antes de eu estar aqui?

O Botafogo entra em campo para não ganhar? Não tem vergonha de não perder? Com base em jogos contra Cruzeiro, Ceará e Corinthians, você concorda com isso?

Não concordo com isso, pelo contrário. O Botafogo talvez seja a equipe que menos empata até por característica minha. Não sou cara de negociar. Não saberia falar aos meus jogadores: “Vamos empatar, empate é bom”.

Quando cheguei aqui, numa das primeiras rodadas, algum jogador falou num jogo fora de casa: “Um empatezinho aqui…”. No outro dia, fui no pescoço dele e falei: “Empatezinho é o c…”.

Eu não sei fazer isso, vou jogar para ganhar. Foram três empates. Não sei fazer isso, até preciso aprender a fazer isso. Talvez seja minha falta de vivência. Não sei falar para 20 caras num início de jogo que empate é bom resultado. Isso vai totalmente contra o que eu penso. Uma coisa é entender as suas dificuldades, outra é ter isso como princípio. O torcedor do Botafogo pode ter certeza que esse princípio não é o meu.

Concorda que contra o Ceará o Botafogo não jogou para ganhar?

Discordo. Aconteceu isso algumas vezes, contra Ceará e Corinthians. Jogo de imposição. Como vou jogar para não ganhar tendo 61% de posse de bola? Faz sentido isso? Simplesmente não conseguimos nos impor, e os caras conseguiram.

É aquilo que eu disse: “Se eu te botar para sair na porrada com o Anderson Silva, você pode até dar um tapa na orelha dele, mas a tendência dele é te bater”. O Ceará várias vezes chegava no nosso gol em três toques. A gente numa sequência de 15, 17 passes, não chegava.

Tem que reconhecer a nossa dificuldade em agressividade, transição. Longe de ser algo ideológico, é muito mais dificuldade.

Muito importante deixar claro que em qualquer jogo eu vou jogar para ganhar, seja contra Flamengo, Palmeiras. Estou num clube grande. Não sou educado para fazer isso (de oferecer o empate como opção).

Por que o time finaliza tão pouco e não sai da lanterna neste quesito dentro do campeonato?

Quatro pontos: para eu chutar de fora da área sem bloqueio, eu preciso de movimento da última linha para afastá-la. Como foi o gol do Alex Santana contra o Avaí, que foi uma jogada de lateral. Se você vir a jogada, o Pimpão faz o movimento que faz a defesa dos caras andar para trás, e o Alex bate.

Preenchimento de área. É uma coisa que a gente começou muito bem aqui, mas por característica não manteve. Luiz Fernando não é um cara de bola aérea. O Erik não era.

Não ser de bola aérea não tem a ver com estatura. Às vezes o cara não tem estatura, mas chega bem de cabeça. Não tenho bons cabeceadores. Tenho Diego e Alex. Então tenho dificuldade, por mais que a gente chegue com a área preenchida, de ter jogadores ali em agressividade.

A gente não tem característica de agressividade em cabeceio. Qual a maneira de minimizar isso? Preencher a área com mais gente. Se preencho a área com mais gente e tenho mais movimentos, a chance de encontrar um jogador mais livre para não duelar e fazer o gol é maior. Infiltração está diretamente ligada a características. Diego e Luiz Fernando atacam as costas.

Na bola parada, a gente melhorou, mas ainda tem margem de melhora. Tem estatura e boa batida. Comecei o campeonato fazendo bola parada de uma forma. Entendi que precisava aproveitar a qualidade de batida e a estatura colocando a bola em disputa mais próxima do gol adversário. Colhemos nos gols contra o Inter, contra o Avaí, contra o Flamengo.

E os poucos gols não te incomodam?

Se pegar meus trabalhos na base, sempre tive times extremamente ofensivos, de muitos gols. Entra na história do estilingue. Capacidade individual e ações coletivas. Tudo isso passa pelo aprimoramento de terço final.

Tem responsabilidade do jogador, que é capacidade dele de fazer a diferença individualmente. E tem todas as ações coletivas, que são de minha responsabilidade. Nunca posso deixar isso na responsabilidade do jogador.

Qual foi o melhor jogo do Botafogo no primeiro turno? E o pior?

Divido em pedaços. O primeiro tempo contra o Bahia, depois que tomamos o gol, a torcida começou a vaiar o Marcinho, e a gente teve atitude muito legal. Na Sul-Americana, no primeiro tempo contra o Atlético-MG, foi maravilhoso. O segundo tempo contra o Athletico-PR foi muito bom, o primeiro contra o Atlético-MG aqui também foi muito bom.

A nossa atitude contra o Flamengo foi muito boa. A gente tem pedaços. Uma coisa que tenho aprendido nesse Brasileiro é que não vi nenhum jogo em que o nosso time se impôs 100% sobre o adversário ou o contrário. Sempre foi muito disputado.

Contra o Avaí, vencemos por 2 a 0, mas eles finalizaram pra cacete. Eles não passaram vergonha, e nós também não passamos.

Fonte: globoesporte.com

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