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MEU NOME É POSSESSO, MAS PODE ME CHAMAR DE AMARILDO

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Amarildo Tavares da Silveira, nasceu no dia 29 de julho de 1939 (1940?) – existem referências numerosas para ambas as datas, em Campos dos Goytacazes (RJ).

O INÍCIO

Após permanência de 1952 até 1957, nas categorias infantis e de base do Goytacaz, o Paulinho, ex ponta direita deste clube, irmão do Roberto Peru, que jogava no Flamengo, viu aquele menino franzino, mas com muita técnica, e decidiu levá-lo para a Gávea.

Rapidamente Amarildo transformou-se numa grande promessa das categorias de base do Flamengo.

UM CIGARRO NUMA HISTÓRIA COM DUAS VERSÕES

O próprio Amarildo conta que tinha 17 anos e foi dispensado por causa de um cigarro que nem era dele: “Um companheiro de time estava fumando, na concentração, enquanto esperava por um telefonema da namorada. Quando ele foi atender, eu fiquei segurando o cigarro. Justamente nesta hora, o treinador (o rígido disciplinador Fleitas Solich) passou. Ele não gostava que ninguém fumasse ou bebesse. Não teve bronca, mas quando eu fui passar a folga de Natal em casa recebi o recado que não precisava mais voltar.”

Outra versão muito difundida entre os pesquisadores e sites de futebol, relata uma história menos branda: era Amarildo, então da equipe de juvenis, que fumava tranquilamente no vestiário quando entrou o técnico Fleitas Solich. A partir daí iniciou-se uma discussão áspera entre os dois que quase os levou às vias de fato (e Amarildo já mostrava sua forte personalidade e que não levava desaforo para casa de ninguém). Terminada a discussão, Amarildo fechava definitivamente as portas da Gávea para ele.

O DESTINO (E NÃO O ACASO): O GLORIOSO

A biografia de Amarildo é recheada de interpretações que o acaso sempre esteve presente em grandes momentos (a ida para o Botafogo e a Copa do Mundo de 1962). Pessoalmente entendo que seu talento e força de vontade aproveitaram as oportunidades que surgem para todos na vida.

Terminando a história do cigarro, na versão “branda” Amarildo apresentou-se ao serviço militar e passou a conviver com vários jogadores. Paulistinha, então juvenil do Botafogo ao conversar com o companheiro, soube da sua história e conseguiu um teste em General Severiano após falar com João Saldanha e Paulo Amaral.

Para a versão mais tensa, após a briga com Fleitas Solich, saiu meio descontrolado e pegou o ônibus errado que passava em frente a General Severiano. Decidiu ali mesmo descer e pedir uma chance, sendo atendido por João Saldanha que já conhecia o menino por conta dos jogos das categorias de base e que tinha um temperamento um tanto explosivo como o garoto…

Hoje em dia, pouco importa. O fato é que Amarildo estava destinado a se tornar um dos maiores atacantes do Glorioso e da Seleção Brasileira.

Linha de ataque fabulosa: Garrincha, Didi, Amarildo, Quarentinha e Zagallo

A TRAJETÓRIA NO BOTAFOGO

Ao fazer 2 gols logo no primeiro teste, Amarildo reservava seu lugar em General Severiano no começo de 1958, ainda com 18 anos.

Em 1960 foi integrado ao elenco de profissionais, passando a compor um quinteto ofensivo dos mais temidos (a linha de ataque “fabulosa” como descrevia a imprensa) da história do futebol brasileiro: Garrincha, Didi, Amarildo, Quarentinha e Zagallo.

OS TÍTULOS E MARCAS NO GLORIOSO

Até 1963, vestiu nossa camisa em 231 oportunidades, marcando 136 gols.

Foi bicampeão carioca em 1961 e 1962. Campeão do Torneio Rio-São Paulo 1962.

Foi artilheiro do carioca de 1961 (18 gols) e do Rio-São Paulo de 1962 (7 gols).

O POSSESSO QUE SEMPRE EXISTIU

Amarildo ainda muito jovem, impressionava não só pela técnica, como pela força que extraía de um físico (1,67 m e 68 kg) não apropriado para o choque direto com zagueiros. Seu temperamento afável na maioria das ocasiões, transformava-se em pura energia e explosão muscular aguerrida dentro de campo, a cada partida. Jadir, o duro zagueiro do Flamengo já tinha provado e sentido isto no jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo em 22/03/1961, quando ganhamos de 3 X 0 (gols do próprio Jadir contra, Quarentinha e Garrincha).Após uma dura entrada em Amarildo que quase o tirou do jogo, do próximo encontro entre os dois, Jadir levou de lembrança para o resto da vida: um corte profundo na perna e 12 pontos.

A SELEÇÃO BRASILEIRA E A OPORTUNIDADE

Em toda sua carreira na seleção, Amarildo foi campeão em 1962 e campeão da Copa Roca 1963, disputando 24 jogos e marcando 9 gols.

Chegou a ser um dos 47 jogadores convocados na incompetente preparação para a Copa da Inglaterra em 1966, mas sequer embarcou para aquela desastrosa campanha, por ter se contundido no final da preparação.

Nas palavras do próprio Amarildo, “eu não tinha muitas esperanças de entrar em campo no Chile em 1962”. De fato, ele era o potencial substituto de Pelé, mas poderia haver uma improvisação com o Coutinho, em caso de necessidade, porque este era muito mais experiente. Dizia-se que Amarildo tinha garantido sua convocação pelas suas impecáveis atuações pelo Botafogo em 61 e 62, mas muito jovem, estaria no grupo para ganhar experiência e se preparar para 1966.

A seleção campeã quatro anos antes, começara uma difícil campanha no Chile, ganhando por 2 X 0 do México (gols de Zagallo e Pelé) na estreia e num difícil empate de 0 X 0 com a Tchecoslováquia no segundo jogo, herdamos o risco da nossa classificação para o resto da Copa e uma distensão muscular de Pelé que o tira do resto da competição.

A hipótese de improvisar Coutinho, o companheiro de Pelé no Santos, acabou com a contusão deste também, em treinamento e foi inevitável lançar aquele jovem voluntarioso de 22 anos incompletos, já no próximo jogo.

Lazer despreocupado com Pelé na concentração

O CONSELHO DA ENCICLOPÉDIA E O FIM DE UMA HISTÓRIA CONTROVERSA

Em função da grande responsabilidade que caía sobre os ombros daquele menino, Nilton Santos, o aconselhou: “jogue como se estivesse no Botafogo!”

Nessa hora, já não importava mais uma história mal explicada até hoje e com numerosos defensores das duas versões: diziam que Pelé fez lobby contra Quarentinha para ser convocado o Coutinho para a Copa de 62… Aimoré Moreyra não levou Quarentinha para o Chile. Foi convocado e depois desligado, devido a “problemas nos meniscos”.

Coincidência ou não, Pelé e Coutinho, por contusão, ficaram de fora e o trio alvinegro no ataque composto por Zagallo, Garrincha (Bola de Ouro desta edição da Copa) e Amarildo contribuiu com 8 dos 14 gols da campanha campeã.

Copa de 1962 após a fatalidade com Pelé: agachados = Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagallo. 4 alvinegros na linha de frente.

A ESTREIA NA SELEÇÃO: MUITO PRAZER SR. HELENIO HERRERA!

Na verdade, Amarildo alinhou no time titular contra a Espanha com 4 companheiros alvinegros: Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagallo. Este fator foi determinante, segundo ele próprio, para um entrosamento imediato à equipe.

Em entrevista antes da partida o famoso e icônico técnico espanhol Helenio Herrera ao comentar a ausência de Pelé, provocava: quem é Amarildo?  Não conheço…

Primeiro gol contra a Espanha, bem ao seu estilo, sem temer a sola do goleiro.

Após um começo discreto, parece que a tentativa de intimidação do zagueiro e capitão espanhol Garcia, já no fim do primeiro tempo, ao puxar-lhe o cabelo e cuspir na sua camisa, despertou o Amarildo enfurecido que todos já conheciam no Botafogo… seu segundo tempo valente e técnico, produziu os 2 gols da virada brasileira e uma dor de cabeça constante à zaga espanhola de um desesperado Garcia que não sabia mais o que fazer.

Entendo que ao final do jogo, o sr. Herrera já conhecia Amarildo…

Segundo gol contra a Espanha, de cabeça, subindo mais que a zaga adversária (pobre Garcia, nada pode fazer à frente do seu goleiro)

Reconhecimento após a estreia fulminante

Lágrimas do dever cumprido

O APELIDO QUE VIROU MARCA REGISTRADA

Uma atuação esplêndida e tão marcante que o cronista Nelson Rodrigues, que nem alvinegro era, escreveu no dia seguinte, que aquilo só poderia ser obra de um “Possesso”.

Sua atuação na Copa continuou importante e rendeu mais um gol na final contra a Tchecoslováquia, com Zito e Vavá marcando os outros 2 gols brasileiros.

Os companheiros Zagallo e Garrincha são os primeiros a chegar após o gol contra a Tchecoslováquia.

CARREIRA SÓLIDA NA ITÁLIA

Com o grande sucesso na Copa, o Botafogo em 1963, após constante assédio de clubes europeus, cedeu ao Milan, vendendo Amarildo por uma grande quantia e conseguindo segurar Garrincha, a outra estrela alvinegra sonhada por grandes clubes europeus.

Chegando após a conquista da Champions League de 1963, permaneceu no Milan até 1967, disputando a final Interclubes de 1963 contra o Santos. Embora o título tenha ficado com o incrível Santos, Amarildo deixou a sua marca com 2 gols naquele duelo (jogo de ida na Itália 4 X 2 Milan, jogo de volta no Brasil, 4 X 2 Santos e jogo desempate, 1 X 0 Santos).

Com Pelé antes do jogo decisivo da final Interclubes de 1963

Sempre foi um atacante importante e prestigiado, numa linha de ataque histórica ao lado de Mora, Lodetti, Mazzola e Gianni Rivera, embora sem levantar nenhum “Scudetto”.

O sonhado título italiano, em 1969, Amarildo conquistaria pela Fiorentina. A equipe de Florença comprou seu passe ao Milan em 1967, tendo ele permanecido lá até 1971.

Com a camisa da Fiorentina

Ainda disputou as temporadas de 1971 e 1972 pelo Roma.

Por nove anos foi rei na Itália e recordista em punições. Suspenso 41 vezes, teve 28 expulsões e pena de 28 semanas. Era o Possesso em ação que quebrara pernas e tivera a sua quebrada e o corpo cheio de cicatrizes.

Em 1972 após uma cirurgia nos meniscos, voltou prematuramente num jogo contra o Bologna, no qual sofreu um derrame no joelho, seguido de mais um longo recesso e atrofia muscular.

No total, disputou 202 jogos pela Liga Italiana, marcando 58 gols.

FIM DE CARREIRA E PROBLEMAS FÍSICOS

Voltou ao Brasil em 1973 contratado pelo Vasco e após uma cirurgia no joelho esquerdo, ainda participou da campanha de 1974 que culminou com o Campeonato Brasileiro daquele ano.

Nos últimos 2 anos no Brasil, os problemas físicos que já o atormentavam na Itália, após continuadas batalhas em campo, tornaram-se mais constantes e foram determinantes para o fim da sua carreira no fim de 1974.

TEMPOS DE PROFESSOR, PROBLEMAS DE SAÚDE E RECONHECIMENTO

Amarildo após aposentar-se voltou para a Itália e trilhou uma carreira de técnico começando nas divisões de base da Fiorentina, permanecendo depois 3 anos no Esperance da Tunísia, 7 anos nos Emirados Árabes Unidos e mais alguns no Qatar.

Voltou a morar no Brasil em 2007 e em setembro de 2011, foi diagnosticado com câncer na garganta. Nove meses mais tarde, revelou, estar completamente curado da doença.

Durante o seu tratamento no Inca, a equipe do dr. Jacob Kligerman foi conseguida graças à intervenção da Presidência do Botafogo, conforme revelado por sua irmã, Maria do Carmo.

Mas as maiores emoções foram reservadas pelos torcedores italianos que mandavam mensagens de apoio pela internet, diariamente, ao longo do tratamento: o nosso Possesso se mostrou surpreso com tanto carinho, apoio e reconhecimento.

BOLA DE OURO DA FIFA 2014 E A PERSONALIDADE SEMPRE MARCANTE

Em 13 de janeiro de 2014, ao participar da cerimônia do prêmio de melhor jogador do mundo, Amarildo convidado para uma homenagem à Seleção, quebrou o protocolo fazendo um discurso de três minutos.

Ao responder uma pergunta da apresentadora Fernanda Lima sobre a importância da torcida, aproveitou para discursar sobre o comportamento violento das torcidas ao redor do mundo, afirmando que elas são importantes, mas não ganham jogo e que é necessário reprimir tal comportamento.

Amarildo discursa durante premiação da Bola de Ouro da Fifa

Entre sorrisos sinceros de uns e constrangidos de outros presentes, foi longamente aplaudido ao final.

Atualmente levando uma vida pacata no Rio, costuma nos brindar com sua personalidade marcante em eventos festivos e comemorativos do Botafogo.

Amarildo, ou melhor: o Possesso, mais um ídolo inesquecível!

Apenas e Sempre Botafogo! Saudações Alvinegras!

Pesquisa:

http://mundobotafogo.blogspot.com.br/;

http://geniosdofutebol.blogspot.com.br/;

cpdoc.fgv.br;

veja.abril.com.br;

esporte.uol.com.br;

trivela.uol.com.br;

terceirotempo.bol.uol.com.br;

http://www.ururau.com.br/;

https://tardesdepacaembu.wordpress.com;

www.deletranacopa.com.br;

Wikipédia e arquivos pessoais do autor.

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