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NEI CONCEIÇÃO – UM CRAQUE NO SEU PRÓPRIO MUNDO

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Nei Conceição Moreira, nasceu em São João de Meriti (RJ) em 08/12/1946.

QUANDO TUDO COMEÇOU

O tio, Moreira, colega do zagueiro Dondon no Andaraí (aquele do samba de Nei Lopes), levou o garoto para inúmeros times de pelada e um se chamava Botafogo Suburbano… presságio?

Teve passagem pelo Pavunense até ser revelado pela mítica escola de Neca, nosso veterano, que trabalhava como olheiro do Botafogo em Del Castilho.

Sendo assim, chegou ao nosso juvenil, na virada de 1962 para 1963.

Ascendeu ao profissional três anos depois estreando no amistoso estadual contra o Royal que terminou 1 X 1, com o nosso gol anotado por Roberto.

A GRANDE CATEGORIA NUMA CONSTELAÇÃO DE CRAQUES

Numa época que a estrela solitária estava apenas no uniforme, Nei Conceição se destacava em equipes convivendo e jogando com Gerson, Jairzinho, Roberto, Paulo Cézar e Carlos Roberto, dentre outros.

Num estilo que o futebol brasileiro hoje, busca resgatar como se fosse grande novidade, após a era dos “volantes brucutus”, Nei Conceição era um expoente de uma geração de meio campistas que desarmavam e armavam com desenvoltura e categoria.

Nosso Botafogo comandado por Zagallo em 1968, atuava num esquema tático 4-3-3. Os três jogadores do meio-campo eram, ao mesmo tempo marcadores e excelentes armadores: Carlos Roberto, Nei Conceição e Gerson.

Na frente, um ataque que foi inteirinho convocado para a Copa do Mundo de 1970: Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo Cézar Lima (Caju).

Ganhou a condição de titular absoluto após a transferência de Gerson para o São Paulo, em 1969.

Nei teria a titularidade garantida em qualquer clube do mundo que não contasse com comissões técnicas e dirigentes tão equivocados.

A presença de Gerson de postura mais comedida, foi problemática para ele e Afonsinho (seu “irmão social” como ele mesmo define), o substituto imediato na posição.

A postura de bater de frente de ambos contra as decisões autoritárias do clube, era punida de forma despreocupada enquanto Gerson fazia parte do elenco, embora o mais lógico seria contar com os três no meio de campo titular do time.

O adversário no chão, e Nei toma a bola sem falta…

O “VIRA CASACA” DAS ARTES

Nei, em paralelo com a bola, sempre foi apaixonado por música e tocava trompete (aprendeu no Colégio Estadual Visconde de Cairú, no Méier).

Há quem diga que, antes de se profissionalizar, virava a casaca durante algumas horas ao fugir do dormitório dos juvenis do Botafogo para atuar em outros clubes…: clubes noturnos da Lapa, onde tocava para descolar um troco. Eis aí mais uma estória, em sua rica e desconhecida biografia, sem confirmação precisa do próprio protagonista, combinando com seu temperamento “low profile” fora do campo.

Suas relações pessoais com o meio acusam o seu gosto: Jards Macalé, Sergio Sampaio, Luiz Melodia, Paulinho da Viola, Fagner, João Nogueira, Roberto Ribeiro etc.

Em outras artes seu círculo de amizades expandiu-se com Helio Oiticica, Waly Salomão, Torquato Neto e Glauber Rocha.

Excursão em 1968. Em destaque: Nei Conceição (em pé), Afonsinho e Paulo Cézar.

APELIDO HOMENAGEANDO A EXTRA CLASSE

Conforme artigos da época, após um dos muitos Botafogo X Santos, ninguém menos que Edson Arantes do Nascimento, após um jogo no qual sofreu uma marcação impecável, além de ser brindado com um chapéu, apelidou Nei de “Chiclete”…. “a bola gruda no pé dele e não sai de jeito nenhum….”

A falta de registros ao vivo não impede que os apaixonados pelo futebol que o viram jogar, não esqueçam seu senso de colocação, sua marcação inteligente, sua precisão no roubo de bola, seus passes precisos e classifiquem-no como um dos mais clássicos e melhores jogadores do futebol brasileiro de todos os tempos.

Justa homenagem no muro dos ídolos da Sede, ao lado dos até hoje companheiros.

Os amigos em foto recente com a Taça Brasil de 1968 (nosso primeiro Campeonato Brasileiro).

A SELEÇÃO E A POSTURA “INACEITÁVEL”

O técnico Zagallo, mesmo tendo sido testemunha diária do seu temperamento em General Severiano, não abriu mão de tê-lo entre os primeiros convocados logo que assumiu o grupo que viria a se sagrar, meses depois, tricampeão na Copa do México, em 1970.

Mas a aposta não foi muito longe: acabou barrando-o, embora muitos o considerassem bem melhor que o incontestável Clodoaldo. O motivo alegado? Indisciplina. O regime da seleção era outro, mais rigoroso, sob intervenção militar.

Assim, voltou à “Selefogo” – um esquadrão de craques permanentemente a postos para qualquer convocação –, mas na condição literal de quase “não selecionável”.

Botafogo 1971: Carlos Alberto Torres, Ubirajara, Brito, Nei Conceição, Sebastião Leônidas e Paulo Henrique (em pé). Zequinha, Carlos Roberto, Nílson Dias, Jairzinho e Paulo Cézar.

A HABILIDADE NEGOCIAL E INTUIÇÃO DE UMA CABEÇA PRIVILEGIADA

Haveria um amistoso da seleção brasileira contra a chilena, em Santiago, em 1970, numa excursão que celebrava a conquista do tri campeonato Mundial, três meses antes.

A colônia de exilados brasileiros no país não era pequena, portanto a recepção à seleção brasileira não foi das mais amistosas por conta do seu uso como peça de propaganda do governo Médici.

Coube a Nei, convocado para a excursão, convencer Pelé a entrar em campo. A pressão era imensa. Pelé estava saturado com a associação do seu nome à ditadura brasileira, assim como com a reação local dos exilados, que decidiram elegê-lo o seu representante oficial.

No ônibus, rumo ao estádio Nacional do Chile, Nei conseguiu convencê-lo a jogar. Como resultado, um dos gols da goleada de 5 X 1, aplicada sobre a seleção da casa, entrou na antologia do Atleta do Século. Depois de driblar vários adversários em velocidade, chutou com força, no ângulo. As vaias que ecoavam toda vez que tocava na bola, cessaram no ato. No seu lugar, aplausos estrondosos. A intuição de Nei não falhou…

TAÇA RAMÓN DE CARRANZA 1972 – 0 X 0 CONTRA O BENFICA? e 4 X 2 CONTRA O BAYERN

Disputado em 1972, em Cádiz, na Espanha, o torneio reuniu parte da nata do futebol mundial da época: Botafogo, Benfica, Bayern de Munique e Atlético de Bilbao.

Contra a nossa equipe a pressão da imprensa esportiva nacional…

Alguns jornalistas aproveitando o estigma que caíra sobre o Botafogo desde a derrota para o Fluminense na final do carioca de 1971, espalharam que o time fora a passeio.

Titulares absolutos como Nei, Brito, Carlos Alberto Torres e Carlos Roberto foram acusados de se embebedar às vésperas dos jogos.

A comissão técnica respaldada pela boataria, puniu com a reserva seus melhores jogadores.

No primeiro jogo da competição, o Benfica marcou 3 X 0 no primeiro tempo.

Eusébio, o supercraque lusitano, a par da situação, pôs a bola debaixo do braço e se dirigiu ao banco adversário ao sair para o intervalo e foi taxativo: se não entrassem em campo os representantes da “Selefogo”, pediria ao Benfica para abandonar a partida.

No segundo tempo com a equipe completa, o placar final ficou inalterado.

“Mas foi aí que o jogo começou de verdade. Então, para mim foi 0 X 0”, concluiu Nei, louvando o gesto do craque moçambicano.

Dias depois na disputa pelo terceiro lugar contra um dos maiores Bayern de todos os tempos (base da seleção alemã campeã em 1974), que adentrou o gramado com força total: Maier, Breitner, Beckenbauer, Müller etc., ganhamos de 4 X 2, gols de Fischer, Roberto e Ferreti (2).

Nei, Brito e Zequinha em ação na fatídica final de 1971 contra o Fluminense.

POR NEI, SÃO PAULO E A ACADEMIA PALMEIRENSE PODEM ESPERAR…

Em 1972 quando foi eleito o “maior toque de bola do Brasil”, Nei marcou o gol da classificação para as finais do Campeonato Brasileiro, contra o Corinthians em 20 de dezembro, numa virada histórica no Maracanã.

Nesse ano ganharam fama os confrontos entre Botafogo e Palmeiras pela Libertadores e pelo Brasileiro. Para se ter ideia, Nei conseguiu ofuscar o genial Ademir da Guia, o que atraiu a atenção da diretoria palmeirense, que não demorou a desejar o seu passe.

Coincidindo com esta maravilhosa fase, Nei adotara o hábito de passar boa parte do seu tempo no Cantinho do Vovô, a comuna dos Novos Baianos, em Vargem Grande.

Na véspera da sua transferência, ele não parecia dar muita importância ao fato iria integrar a histórica Academia Palmeirense. Nei preferiu pernoitar por lá mesmo. Sua cabeça não estava ocupada com certos detalhes da viagem como, por exemplo, a hora marcada do voo. Ou, ainda, a coletiva de imprensa e os dirigentes e torcedores alviverdes que o aguardavam para a apresentação formal no dia seguinte. Por ele, São Paulo podia esperar…

Seus amigos músicos tentaram convencê-lo de que o melhor era ele ir. Afinal, jogaria ao lado do Divino e outros craques. Mas não deu resultado. Perdidos o voo e a transferência, Nei prosseguiu ganhando menos no Botafogo.

SAÍDA DO GLORIOSO

Após ser campeão Carioca juvenil (1966), do Torneio Rámon de Carranza, do Torneio Início do Campeonato Carioca; da Taça Guanabara, Carioca e do Torneio de Caracas (todos em 1967) e bicampeão da Taça Guanabara, bicampeão Carioca, campeão Brasileiro, bicampeão do Hexagonal do México e bicampeão do Torneio de Caracas (todos em 1968), Nei disputou sua última partida pelo nosso clube em 07/12/1974 num 0 X 0 contra o Fluminense, completando 340 jogos e 13 gols.
FIM DE CARREIRA E O COMPORTAMENTO SINGULAR

Transferiu-se para o CSA em 1975 por empréstimo, sem deixar de chamar a atenção pela sua forte personalidade e uma quase bipolaridade. Reportagens de Alagoas na época, descrevem tamanho espanto “… quase se pode falar em dupla personalidade. Dentro do campo, conduz o time com uma classe nunca negada e uma insuspeita capacidade de liderança. Entre os companheiros, na concentração, oscila entre o silêncio total, o isolamento voluntário, a curtição musical, uma extrema delicadeza, e um comportamento de moleque, súbito, imprevisível.

“… Nei Conceição tem deixado os alagoanos ora maravilhados, ora espantados, ora assustados. Para seu futebol todos só tem elogios – Nei é dono de um estilo magnífico. Tem uma facilidade enorme para driblar e um controle de bola fora do normal.”

“… Quando o CSA viajou para São Paulo para enfrentar o Santos aconteceu algo diferente do normal. O técnico Laerte Doria convocou uma reunião com os jogadores e o Nei não apareceu. Continuou no seu quarto.  O supervisor Wassil Barbosa tentou convencê-lo a descer e só conseguiu um recado para o técnico – Se o Laerte quiser falar comigo, que me procure aqui. Ele foi afastado do time. Por que fez aquilo? Ninguém sabe. Nem ele, talvez .”

Aí ele sente uma tristeza muito grande dentro dele. Nessas horas, é só a mulher, dona Maura, quem ajuda. Graças a ela, Nei tem sido feliz, apesar de todas as coisas que dizem sobre ele.

Dentro do campo tem um comportamento exemplar. Fala grosso com os companheiros que tentam fugir da briga, xinga a torcida quando ela está vaiando o time.  Depois dos noventa minutos, volta ao vazio: não lê jornais, nem livros e não vê televisão.

…Ah, a música… Parece ser o seu mundo… Gosta de falar sobre o samba e fica sorrindo.”

No CSA foi campeão alagoano de 1975.

Da esquerda para a direita em pé: Afonsinho (o segundo) e Nei Conceição (o quinto) com torcedores/fãs em bar da Zona Sul do Rio em foto recente.

O CLUBE RESUMIDO NA PERSONALIDADE DO CRAQUE

Nei assim como Heleno, é a encarnação do Botafogo numa pessoa: teimoso em suas verdades, imprevisível, apaixonante, personalidade marcante, única, com genialidade limítrofe entre a normalidade e a incompreensão para nós, simples mortais…

Obrigado Nei! Somente nosso Glorioso poderia abrigar você na nossa História.

Apenas e Sempre Botafogo! Saudações Alvinegras!

Pesquisa:

terceirotempo.bol.uol.com.brwww.museudapelada.comwww.falaglorioso.com.br; edicao.jornalpequeno.com.br;  mundobotafogo.blogspot.com; wikipédia e arquivos pessoais do autor.

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